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Beatriz Lemos

[Pesquisa e redação de artigo para a Enciclopédia Itaú Cultural]

Beatriz Lemos (Niterói, Rio de Janeiro, 1981). Pesquisadora e curadora. Destaca-se por pesquisar a cena artística contemporânea da América Latina e seus pontos de contato com o Brasil. Nessa articulação, investiga questões anticoloniais, de gênero e raça.

Ao matricular-se no curso de educação artística, com habilitação em história da arte, em 2001, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Beatriz Lemos planeja dar aula de arte. No segundo ano da faculdade, entretanto, começa a estagiar no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, na área de documentação e seus planos de docência ficam para trás. O interesse pelo documento e pela pesquisa floresce e permeia toda sua produção.

Ainda na graduação, é atraída pela arte contemporânea da América Latina. Percebe que, no Brasil, há pouca informação sobre o que acontece nos países vizinhos. Em 2005, antes de terminar a faculdade, dá início ao projeto Lastro – Intercâmbios Livres em Artes, com o intuito de realizar residências em países da América Latina para conhecer a produção contemporânea além das fronteiras brasileiras. Com editais e chamamentos públicos, Beatriz consegue realizar viagens para Argentina, Bolívia, Chile e Colômbia. Durante essas residências, atua como articuladora, tecendo possíveis conexões entre o Brasil e os países vizinhos.

Entrevista diversos artistas e agentes culturais por onde passa, além de visitar museus, galerias e espaços independentes de arte. Na programação, sempre deixa um espaço reservado para realizar uma oficina ou palestra em que fala sobre a cena brasileira e, desse modo, promover o intercâmbio cultural. Essa experiência é tema de sua pesquisa de mestrado em História Social da Cultura, na Pontifícia Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), defendida em 2013. Na dissertação Lastro – Intercâmbios Livres em Arte: Mobilidade na Arte, Seus Fluxos, Agentes e Reverberações, Beatriz explica a experiência nas atividades promovidas nos países da América Latina. Um dos resultados desses contatos é a criação da plataforma Lastro, que reúne trabalhos de diversos artistas latino-americanos e serve como fonte de pesquisa.

Além das ações com o Lastro, Beatriz trabalha durante oito anos no arquivo da artista Márcia X (1959-2005). Da catalogação de documentos e obras resulta a publicação de dois volumes de textos e fotos do trabalho da artista e na grande retrospectiva Márcia X – Arquivo X, realizada em 2013, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, para onde é doado o espólio da artista.

Após a primeira década do projeto Lastro, Beatriz propõe viagens coletivas e expande seu raio de circulação para a América Central. Durante cinco meses, encontra-se com artistas e curadores em determinados países e cidades para realizarem suas pesquisas. Doze artistas e três curadores participam da expedição e passam por Guatemala, Panamá e México. A viagem resulta na exposição Lastro em Campo (2016), no Sesc Consolação, em São Paulo. Essa experiência reforça o interesse da curadora pelo trabalho descentralizado, no qual as decisões são tomadas de forma horizontal.

Antes de se mudar para São Paulo, Beatriz trabalha no Parque Lage, onde inaugura o Centro de Documentação e Pesquisa, em 2016. O intuito é transformar a biblioteca em um espaço ativo da instituição, promovendo eventos como rodas de conversa e lançamentos de livros.

O segundo projeto de residência coletiva acontece em 2017, com uma viagem de dois meses pela Bolívia. Beatriz viaja com a curadora Catarina Duncan e mais oito artistas. Os trabalhos e executados na residência fazem parte da mostra Travessias Ocultas – Lastro Bolívia (2018), no Sesc Bom Retiro, em São Paulo.

Em 2017, Beatriz fixa residência em São Paulo. A mudança fomenta a necessidade de abrir novas frentes com o Lastro. Em busca de um local para montar uma biblioteca, formada nas viagens pela América Latina, negocia um espaço com a Oficina Cultural Oswald de Andrade. Além da catalogação e disponibilização dos livros para a pesquisa, propõe uma programação de encontros para estudar questões sobre migração. Assim nasce o Grupo de Estudos Lastro, cuja bibliografia é focada em autores da América Latina e textos que exploram questões anticoloniais.

O trabalho de Beatriz Lemos tem forte ligação com a pesquisa e o estudo. Seu interesse em conhecer os artistas latino-americanos faz com que ela se aproxime de narrativas decoloniais, traçando paralelos entre entre os contextos e a cultura brasileira com os demais vizinhos. Questões de gênero e raça também atravessam seus estudos e projetos curatoriais, como na mostra Textão (2018), pensada em parceria com as plataformas Explode! e Lanchonete.org, para o Museu da Diversidade Sexual, da qual participam 50 artistas.

Beatriz Lemos explora a diluição das fronteiras, sejam elas geográficas, culturais ou mesmo artísticas, fazendo seleções menos ortodoxas em suas curadorias, misturando literatura, música e trabalhos plásticos em suas escolhas.

 

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Nosso Corpo, Nossa Voz

O grupo de estudos e trabalho Vozes Agudas, formado por mulheres atuantes na cena artística paulista, tem como mote estudar e intervir no sistema das artes, via uma perspectiva feminista de crítica da cultura. Dentre as nossas proposições de análise e participação no “jogo” de (in)visibilidade do meio artístico, preocupa-nos as dificuldades de inserção e consagração de trajetórias de mulheres artistas, curadoras, educadoras, produtoras e tantas outras profissões do meio, e suas negociações sociais para manutenção das carreiras.

Como uma das frentes de apoio e de enfrentamento face às dificuldades encontradas pelas mulheres (em sentido expandido) para se consolidarem profissionalmente, nos deparamos constantemente com as estratégias de silenciamento e apagamento histórico – e pensando nesse paradoxo de ausência/presença das mulheres no meio das artes, decidimos efetuar e propiciar plataformas de fala e escuta sobre as experiências profissionais e pessoais, a fim de que haja a possibilidade de troca, de referenciamento e de propagação da memória.

Ao longo de um ano, com esforço e teimosia, realizamos palestras e falas públicas com convidadas de diferentes setores e contingências do sistema das artes, estudamos aspectos pertinentes aos problemas feministas no meio artístico e, como consequência, efetuamos gravações e demais registros sobre essas falas, conversas e encontros. O resultado disso, ainda em processo de consolidação, é o podcast Vozes Agudas, em que conversamos com essas figuras femininas, feministas ou não, sobre suas escolhas e conflitos da profissão.

A fim de marcar o investimento de meses nessas ações, apresentamos aqui uma pequena exposição de três das artistas entrevistadas nesse percurso, que ora tocam questões feministas e de política da identidade, ora oferecem possibilidades de desvio em verdades solidificadas sobre o eu-mulher.

Fabiana Faleiros, Virginia de Medeiros e Ana Teixeira, artistas pertencentes a diferentes gerações, regiões do país, com trajetórias profissionais diversas e metodologias de trabalho também particulares, formam então um conjunto heterogêneo de extratos sociais, mas coerente no mote de questionamento de afetos e desejos, de subjetivação feminina em diferentes direções e objetivos, e de resoluções formais para os discursos poéticos. De um feminino socialmente consolidado – mas atravessado de estranhamentos – até o feminino performado – almejado ou debochado frente às convenções sociais – o que alinhava essas produções, inclusive em suas discordâncias, é a inquietude quanto às demarcações da feminilidade e nosso exercício de esgarçamento desses códigos de gênero.

Fabiana Faleiros desenvolve projetos de performance, artes visuais e escrita, no Brasil e no exterior. É doutora em artes e defendeu a tese “Lady Incentivo – SEX 2018: um disco sobre tese, amor e dinheiro”. Nesse trabalho, a artista pesquisou sobre a construção histórica da feminilidade branca por meio de uma perspectiva feminista decolonial. 

Virginia de Medeiros é conhecida por seu trabalho híbrido entre documentário e proposta de fabulação da vida, trabalhando com vídeo-instalação e audiovisual. Virginia é motivada, principalmente, pelas possibilidades de encontro, os afetos gerados por esses contatos e pela capacidade de conexão com os outros, materializada de modo fracionado pelas imagens e textos que produz.

O trabalho de Ana Teixeira transita por diferentes meios, com interesse pelo desenho e pela arte participativa, tendo a literatura e o cinema como suas principais referências. Se interessa por uma arte que propicie encontros, que se misture com a vida cotidiana e resulte em possíveis repercussões nos participantes.

Sigamos com mais corpos e mais escutas…

O grupo Vozes Agudas: mulheres na arte é formado por Ana Paula Monteiro Nagano, Bia Mantovani, Cal Kielmanowicz, Emily Mayumi, Juliana Caffé, Karina Sérgio Gomes, Letícia Ranzani, Mariana Lorenzi, Sol Casal, Talita Trizoli, Tania Rivitti e Thais Rivitti.

 

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Vestígios – memória e registro de performance e site specific

A mostra Vestígios – memória e registro da performance e do site specific, elaborada pelos alunos do curso Laboratório de Curadoria, ministrada por Tobi Maier, foi composta a partir de obras do acervo do MAM e de sua biblioteca, que fossem classificadas como performance ou site specific e tivessem o corpo como suporte.

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Walter Zanini – Lotear o Museu

 Trabalho final do curso de pós-graduação em Gestão de Projetos Culturais. O artigo pretendia discutir a vitalidade de ações curatoriais de Walter Zanini (1925-2013) à frente do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). O recorte escolhido para exemplificar seu modelo de gestão foi a sexta edição da Jovem Arte Contemporânea, de 1972, em que a participação direta dos artistas se tornou decisiva para um modelo de curadoria negociado. A exposição mudou radicalmente o perfil do museu, transformado-o em um espaço de debates de ideias.

Walter Zanini – Lotear o Museu from Karina Sérgio Gomes on Vimeo.