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Documentário dá merecido destaque ao talento da escultora Maria Martins

[Colaboração para o site Mulher no Cinema]

No hall de um cinema paulistano, minutos antes da pré-estreia de Maria: Não Esqueça que Venho dos Trópicos, o que se ouvia era: “aquela que foi amante do Duchamp”. Esta é uma das poucas informações (quando não a única) que a maioria das pessoas conhece sobre a escultora Maria Martins (1894-1973), tema de documentário que estreia nesta quinta-feira (16).

No entanto, a artista foi muito mais. Sua escultura traz ineditismos e um frescor nos temas referentes ao desejo e ao sexo feminino que foram pouco explorados em obras da época. Além do bronze, foi uma personalidade importante nos bastidores de grandes instituições de arte e chegou a entrevistar o líder chinês Mao Tsé-Tung (1893-1976). Por isso e pelo enorme talento ainda pouco divulgado de Maria Martins, e neste momento em que discutimos o papel das mulheres do mundo, o documentário de Francisco Martins e Elisa Gomes se faz necessário.

A vida da artista é reconstituída por meio de entrevistas com críticos, pesquisadores e curadores brasileiros e estrangeiros, leitura de livros, cartas e entrevistas, falas de conhecidos e familiares da artista. Da infância ao primeiro “escândalo” – o fim de seu primeiro casamento com o historiador Octávio Tarquínio de Sousa (1889-1959), em 1920, para se casar com o embaixador Carlos Martins (1884-1965), o que lhe custaria a guarda de sua primeira filha e lhe daria liberdade para ser artista -, o longa trata ainda do contato inicial de Maria com a escultura; sua influência nos bastidores nas curadorias das duas primeiras Bienais de São Paulo e também para a concepção do acervo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; a construção das obras públicas que realizou em Brasília e, claro, seu relacionamento com Marcel Duchamp (1887-1968).

Sendo Maria tão influente e nascida no mesmo ano – 1894 – do célebre escultor modernista Victor Brecheret, por que não se estuda o trabalho da artista nas aulas de arte nas escolas? Porque, como diz a curadora e pesquisadora Verônica Stigger, a escultora “correu pela margem”. Quando veio para o Brasil com suas obras sobre mitos da Amazônia, os artistas brasileiros já estavam navegando contra a ideia de identidade nacional. O maior crítico daquele momento era Mário Pedrosa, que dizia que o grande problema de Maria era ter personalidade demais.

No entanto, em Nova York ela expôs ao lado de grandes nomes, como Piet Mondrian (1872-1944). Durante o período em que morou nos Estados Unidos, teve uma intensa e frutífera relação com Marcel Duchamp. A artista não só serviu de modelo para Étant donnés, a última e uma das célebres obras do pai do ready made, como era sua fonte de inspiração e uma importante interlocutora: trocava com ele informações sobre arte e técnicas de escultura.

Se Maria era esse personagem estranho no cenário da arte brasileira, os diretores também inseriram no documentário um elemento desconectado. Depois de cenas de arquivo em que a própria Maria Martins aparece, quem surge é a atriz Malu Mader. Aí, você se pergunta: por quê? Por quê? Por quê? Porque ela quis.

Durante o lançamento do livro Maria, da Cosac Naïfy, em 2010, a atriz descobriu que havia uma artista plástica que era sua xará. Quando entrou em contato com a família da escultora, pedindo para fazer algum projeto, o documentário já estava em produção. Pois ela entrou no comboio e sentou na janelinha. Para brasileiros que conhecem mais a Maria de Lourdes Mader do que a Maria de Lourdes Martins, ficam algumas interrogações: o que ela está fazendo no filme? Será que é parente? Será que fez alguma grande descoberta? Será que também é escultora? Não, ela está lá apenas porque quis participar.

O bom é que a atriz não aparece muito, e a vida e a obra de Maria Martins se sobressaem nos 81 minutos. De acordo com a biógrafa Graça Ramos, a artista é como um lusco fusco: ora aparece, ora some do cenário das artes e da cultura nacional. Espera-se que, com esse documentário, a escultora entre de vez para a história com o devido destaque. Como diz o crítico e curador Paulo Herkenhoff, foi ela quem fez a escultura mais radical no Brasil do século 20, e sua obra trata de temas como a nudez e a sexualidade muito antes da escultora francesa Louise Bourgeois (1911-2010).

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Jackie

Entre os filmes do Oscar de 2017 na Netflix, vejo todo mundo recomendar Lion, Moonlight e poucos falam de Jackie. Eu demorei para encarar o filme novamente por conta de uma cópia pirata mal-feita que tinha visto. Mas enfrentei o longa no fim do domingo.

PUTAQUEPARIUQUEFILME. Não é só a Natalie Portman que está incrível, mas o longa tem um baita roteiro, trilha sensacional, uma fotografia incrível tanto nas cenas de ficção quanto nas de reconstituição de fatos reais. Tudo encaixado perfeitamente em 1h30. Por um mundo com mais filmes poderosos e curtos!

Eu tenho fascínio por vidas de primeiras-damas. Porque elas podem parecer apenas acessórios de homens poderosos, mas em geral são peças tão fundamentais quanto e se revelam personagens mais interessantes. Se hoje à noite você tiver uma 1h30 sobrando, veja esse filme, antes que ele saia do catálogo da Netflix.

 

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Regina Silveira – Um Esboço Biográfico

Trata-se de um ensaio biográfico sobre a artista plástica Regina Silveira. O objetivo desse trabalho foi traçar um perfil de Regina por meio de histórias, análises e imagens de seus trabalhos. Descobrir em que momento ela sentiu necessidade de expressar com outras formas de arte, como instalações e vídeo. Verificar quais foram os caminhos percorridos, tanto em momentos de pesquisa quanto na experiência de vida, que influenciaram aspectos de sua obra e abriram portas inesperadas e transformadoras.

Entrando na toca da artista

Alice, ardendo em curiosidade, correu atrás do coelho campo afora, chegando justamente a tempo de vê-lo enfiar-se numa grande toca sob a cerca. Logo depois Alice entrou atrás dele, sem pensar sequer em como sairia dali outra vez.

(Lewis Carroll)

Assim como Alice, corri atrás de uma obra que me levou até a rainha de um país de sombras distorcidas, luzes fantasmagóricas, labirintos, simulacros… Um Mundus Admirabilis tão fantástico como o País das Maravilhas, e com pessoas tão, ou mais, interessantes que mereceriam ser protagonistas de outros livros. Mas, aqui, emprestaram suas vozes para contar a história da carreira dessa rainha, que não é a de Copas, mas a das Artes, a artista plástica Regina Silveira. Regina é apontada pela crítica como um dos nomes fundamentais da arte contemporânea brasileira. Embora eu não tivesse a compreensão do quão fundamental era ela antes de começar esse projeto. Para mim, a artista era aquela obra: O Paradoxo do Santo, que muito me impressionou, aos dezesseis anos, quando fui ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo pela primeira vez. Depois do encontro com aquela gigantesca sombra de um cavaleiro militar, que se projetava a partir da imagem naïf, de um homenzinho sentado sobre um cavalo, o nome de Regina Silveira nunca mais saiu da minha memória. Era ver outras obras de sua autoria que me vinha a imagem d’O paradoxo… Assim, quando optei por fazer um projeto experimental que unisse as minhas duas paixões − artes plásticas e jornalismo−, o nome de Regina foi o primeiro que me veio à mente. Eu até tentei pensar em outros artistas; no entanto, só conseguia me imaginar escrevendo sobre ela.

Debruçar sobre sua carreira e tentar traduzir, numa linguagem acessível, quem é a artista plástica Regina Silveira não foi uma tarefa fácil. Foi preciso, como diria Humberto Werneck, sujar muito os sapatos. Viajei para Porto Alegre, sua terra natal, para resgatar o começo de sua carreira. Percorri os principais museus de arte de São Paulo à procura de informações sobre os trabalhos desenvolvidos durante os 36 anos em que ela está radicada na capital paulista. Entrevistei mais de quarenta pessoas, que me deram outras visões sobre a artista. E tentei o máximo de contato possível com Regina, que, assim como o coelho branco de Alice, vive correndo a fim de dar conta de tantos compromissos assumidos e acertando os ponteiros do relógio para não chegar atrasada (ela é super-rigorosa com horários).

Coube a essa jovem jornalista, ardendo em curiosidade, mergulhar, sem pensar sequer em como sairia dali outra vez, nessa toca de geometrias intuídas e jogos de representação. Ao longo do caminho, notei que precisaria de muito mais do que essas páginas e muito mais do que um ano para a artista ser bem desenhada. Mas deixo aqui esse esboço, um pequeno rascunho, sobre a carreira de Regina Silveira.