Categorias
Curadoria & Pesquisa Enciclopédia do Itaú Cultural Novidades Pesquisa

Leda Catunda

[Pesquisa e redação de artigo para a Enciclopédia do Itaú Cultural]

Leda Catunda (São Paulo, São Paulo, 1961). Artista Visual, pesquisadora e professora. Uma das expoentes da Geração 80, explora em seu trabalho questões referentes à representação das imagens e ao universo pop.

Formada pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo, Leda é aluna de Regina Silveira (1939), Nelson Leirner (1932)e Julio Plaza (1938-2003). Durante a formação, se aborrece por ter de desenhar tanto a pedido dos professores e parte, então, em busca de desenhos já disponíveis no mercado.

Entre seus primeiros trabalhos estão as Vedações (1983). Nessa série, a artista se apropria de tecidos estampados, em geral figurativos, e apaga algumas informações com tinta, recriando a estampa. Utiliza-se conceitualmente da pintura: pincel e tinta servem para destacar, apagar, recriar ou criticar um mundo já coberto de imagens. Como tela, utiliza objetos aparentemente banais encontrados em regiões de comércio popular, como flanelas, cortinas de banheiro, cobertores, toalhas e tecidos, em geral usados em ambientes domésticos.

No ano seguinte, ainda recorrendo a materiais disponíveis no mercado, Leda realiza pinturas mais figurativas, como Aquário (1984). Nela, apropria-se das imagens de peixes de uma cortina de plástico para pintar uma caixa de vidro em volta do cardume. A artista chama esses trabalhos de pinturas-objetos.

De acordo com Leda, o interesse pelo universo popular e kitsch vem da ausência desse repertório na casa dos pais. Filha de arquitetos, a residência em que mora na infância é decorada com poucos objetos e, em geral, com design planejado. É a casa da avó portuguesa que desperta o interesse da artista por elementos populares e artesanais de decoração, como toalhas de crochê. O repertório visual começa a se formar nos passeios com a avó pelo comércio popular no largo de Pinheiros, em São Paulo.

Ainda no começo da carreira, a pintura de Leda (como a de outros artistas dos anos 1980) chama a atenção dos principais críticos, galeristas e curadores da época. Em 1983, com apenas 22 anos, participa da mostra coletiva Pintura Como Meio, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP), ao lado dos artistas Ciro Cozzolino (1959), Sergio Romagnolo (1957), Ana Maria Tavares (1958) e Sérgio Niculitcheff (1960), com curadoria de Aracy Amaral (1930). Para a curadora, o talento e o frescor da produção desses jovens está na forma contemporânea de usarem a pintura, buscando suportes menos usuais do que a tela emoldurada e destacando na parede materiais menos nobres, como o “pano”.

No ano seguinte, Leda participa da icônica exposição Como Vai Você, Geração 80?, que faz um balanço da produção de 123 artistas da época no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Recém-saída da faculdade, ainda nos anos 1980, expõe trabalhos na I Bienal de Havana (em Cuba) e nas XVII e XVIII bienais de São Paulo.

No final dos anos 1980, começa a se distanciar do trabalho figurativo, procedimento que ganha força na década seguinte. Nas obras abstratas, a textura e a estampa do material continuam presentes, mas explora formas geométricas, como na produção apresentada na exposição individual na Galeria São Paulo, em 1992.

Durante essa década, Leda cria o que chama de pintura-instalação, isto é, obras com maior volume e dimensão. As formas geométricas adquirem aparência abstrata, como em Siameses (1998). Essa fase é simultânea à pesquisa de mestrado desenvolvida na Escola de Comunicação e Artes (ECA), que recebe indicação ao doutorado direto, defendido em 2003. Na tese, Leda pesquisa a “poética da maciez”, em que estuda sua produção e de outros artistas que exploraram o uso de formas amolecidas. Em 2014, essas estruturas macias passam a dar espaço a materiais mais duros, quando a artista realiza , considerada sua primeira escultura, feita em madeira, em que explora a imagem de fórmicas que imitam madeira.

A partir dos anos 2000, aplica imagens fotográficas às pinturas. Primeiro, utiliza fotos de seu acervo pessoal, com amigos e familiares, como em Todo Pessoal (2006). Depois, apropria-se de imagens enviadas por amigos ou encontradas na internet. Com o fenômeno das redes sociais, as fotos postadas pelos usuários entram para seu repertório, como em Mar Linda (2016), em que usa fotos do perfil de uma jovem. Essa obra faz parte da exposição I love You, Baby, em 2016, no Instituto Tomie Ohtake. Nela, apresenta pinturas que trabalham com o que chama de “consumo afetivo”, explorando o uso de logomarcas e imagens de desejo, como de paisagens de férias na praia.

A obra de Leda Catunda se pauta pelo uso de imagens, tecidos e estampas disponíveis a todos. Como ela própria costuma dizer: “gosto de gostar do que os outros estão gostando”1. Atenta ao comportamento das pessoas a sua volta, ao que estão vestindo e fazendo, a artista capta essas referências, transformando-as em matéria-prima para seu trabalho, sem perder o tom de crítica e acidez, que se acentua em seu universo almofadado e colorido.

Nota

1. Entrevista de Leda Catunda ao programa programa “Quadro por Quadro”, da revista Vogue, durante a exposição O Gosto dos Outros, realizada no Galpão da Galeria Fortes D’Aloia e Gabriel em abril de 2015 (7 min). Disponível em: https://youtu.be/YqZ8xyFYMHY. Acesso em: 15 out. 2019.

 

LEDA Catunda. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10215/leda-catunda&gt;. Acesso em: 09 de Mar. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

Categorias
Curadoria & Pesquisa Enciclopédia do Itaú Cultural Novidades Pesquisa

Valeska Soares

[Texto para a Enciclopédia do Itaú Cultural]

Valeska Soares (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1957). Artista visual. Explorando dualidades de sentido, como prazer e desagrado, beleza e morbidez, completude e ausência, produz obras que integram diferentes linguagens, como pintura, escultura, colagem, vídeo e instalação.

Formada em arquitetura pela Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, produz seus primeiros trabalhos em 1989, a maioria deles com a denominação Untitled (sem título). Os primeiros objetos e esculturas são criados com materiais do cotidiano, e muitos deles consistem na fixação de tecidos em armações. Um exemplo disso é Mar de Rosas (1989), em que uma delicada colcha branca, bordada com desenhos de rosas, é presa por um gancho, fixado em um cabo de aço.

Para o crítico de arte Adriano Pedrosa (1965), Valeska lida com um complexo repertório de temas, que têm em comum a resistência a uma nomeação precisa ou a presença de conceitos opostos em uma mesma obra. Em Sem Título (Preserva) (1991), a artista expõe dúzias de rosas vermelhas, embrulhadas em algodão branco. Com o tempo, as flores começam a apodrecer e o trabalho adquire feições mórbidas. Para o estudioso Charles Merewether, ela cria em suas obras um universo hermético e místico, de grande poder erótico. As rosas podem remeter ao amor, mas também ao vermelho do sangue e à morte.

De acordo com a curadora Júlia Rebouças (1984), desde a década de 1990, os trabalhos da artista remetem ao feminino. Isso fica evidente em Doubleface (2017-2018), em que lida com retratos de mulheres, encontrados em antiquários. A artista pinta o avesso das telas, nas quais figuram os retratos, e faz um corte de tamanho e posição distintos em cada uma, dobrando a parte recortada. O procedimento faz o rosto, as pernas, os pés ou as mãos dessas figuras femininas se destacarem na nova superfície pintada.

Valeska se especializa em história da arte e arquitetura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ) em 1990. Muda-se para os Estados Unidos em 1992 e faz um mestrado no Pratt Institute. Inicia doutorado em artes plásticas na New York University em 1996.

Na década de 1990, há uma mudança de escala nos trabalhos da artista, que passam a ocupar um espaço maior. Em Sem título 03 (From Fall) (1994), toda uma sala da Bienal de São Paulo é usada. Nela, Valeska espalha rosas vermelhas pelo chão e faz saírem do teto pares de cordas feitas com cabelos sintéticos, que seguram um bastão de mármore disposto na horizontal. O uso de flores, como rosas e lírios, torna-se frequente nessa época, acrescentando aos trabalhos novos sentidos e sensações, como tato e olfato. Em Vanishing Point (1998), a artista justapõe tanques de aço inoxidável ao redor de uma coluna, aludindo a diagramas de jardins clássicos, em labirinto. Os tanques se transformam em esculturas e são preenchidos por uma solução perfumada. O perfume adocicado, a princípio sedutor, torna-se, por seu excesso no ambiente, enjoativo.

A formação da artista lhe permite trabalhar com elementos arquitetônicos e paisagens, que se tornam mais frequentes em suas obras no final da década de 1990. É o caso de Folly (2005-2009), que, exibida pela primeira vez na Bienal de Veneza, integra a coleção de Inhotim, em Minas Gerais. Na obra, as paredes espelhadas de uma espécie de coreto incluem a vegetação que está ao redor. Na parte de dentro da estrutura, em que também há espelhos, é possível ver uma projeção de pessoas dançando no antigo cassino da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, ao som da canção “The Look of Love”. A instalação passa ao espectador uma sensação de suspensão do tempo, em que passado (as pessoas dançando) se mistura com presente (o reflexo do visitante na parede).

Valeska também inclui literatura em suas obras, ao usar capas de livros como objetos de composição, como em Novella (from Bindings) (2010), ou escritos literários, como faz em Edit (Love Stories) (2012). Nesta obra, ela apaga frases de livros, como Fragmentos de um discurso amoroso (1977), de Roland Barthes (1915-1980), deixando aparentes apenas trechos sobre rompimentos amorosos e envolvimentos afetivos.

Com materiais contrastantes, e por meio da dualidade de sentidos, a obra de Valeska amplia as possibilidades de ocupação e ressignificação dos espaços

 

FONTE DE PESQUISA

Categorias
Curadoria Curadoria & Pesquisa Novidades

Nosso Corpo, Nossa Voz

O grupo de estudos e trabalho Vozes Agudas, formado por mulheres atuantes na cena artística paulista, tem como mote estudar e intervir no sistema das artes, via uma perspectiva feminista de crítica da cultura. Dentre as nossas proposições de análise e participação no “jogo” de (in)visibilidade do meio artístico, preocupa-nos as dificuldades de inserção e consagração de trajetórias de mulheres artistas, curadoras, educadoras, produtoras e tantas outras profissões do meio, e suas negociações sociais para manutenção das carreiras.

Como uma das frentes de apoio e de enfrentamento face às dificuldades encontradas pelas mulheres (em sentido expandido) para se consolidarem profissionalmente, nos deparamos constantemente com as estratégias de silenciamento e apagamento histórico – e pensando nesse paradoxo de ausência/presença das mulheres no meio das artes, decidimos efetuar e propiciar plataformas de fala e escuta sobre as experiências profissionais e pessoais, a fim de que haja a possibilidade de troca, de referenciamento e de propagação da memória.

Ao longo de um ano, com esforço e teimosia, realizamos palestras e falas públicas com convidadas de diferentes setores e contingências do sistema das artes, estudamos aspectos pertinentes aos problemas feministas no meio artístico e, como consequência, efetuamos gravações e demais registros sobre essas falas, conversas e encontros. O resultado disso, ainda em processo de consolidação, é o podcast Vozes Agudas, em que conversamos com essas figuras femininas, feministas ou não, sobre suas escolhas e conflitos da profissão.

A fim de marcar o investimento de meses nessas ações, apresentamos aqui uma pequena exposição de três das artistas entrevistadas nesse percurso, que ora tocam questões feministas e de política da identidade, ora oferecem possibilidades de desvio em verdades solidificadas sobre o eu-mulher.

Fabiana Faleiros, Virginia de Medeiros e Ana Teixeira, artistas pertencentes a diferentes gerações, regiões do país, com trajetórias profissionais diversas e metodologias de trabalho também particulares, formam então um conjunto heterogêneo de extratos sociais, mas coerente no mote de questionamento de afetos e desejos, de subjetivação feminina em diferentes direções e objetivos, e de resoluções formais para os discursos poéticos. De um feminino socialmente consolidado – mas atravessado de estranhamentos – até o feminino performado – almejado ou debochado frente às convenções sociais – o que alinhava essas produções, inclusive em suas discordâncias, é a inquietude quanto às demarcações da feminilidade e nosso exercício de esgarçamento desses códigos de gênero.

Fabiana Faleiros desenvolve projetos de performance, artes visuais e escrita, no Brasil e no exterior. É doutora em artes e defendeu a tese “Lady Incentivo – SEX 2018: um disco sobre tese, amor e dinheiro”. Nesse trabalho, a artista pesquisou sobre a construção histórica da feminilidade branca por meio de uma perspectiva feminista decolonial. 

Virginia de Medeiros é conhecida por seu trabalho híbrido entre documentário e proposta de fabulação da vida, trabalhando com vídeo-instalação e audiovisual. Virginia é motivada, principalmente, pelas possibilidades de encontro, os afetos gerados por esses contatos e pela capacidade de conexão com os outros, materializada de modo fracionado pelas imagens e textos que produz.

O trabalho de Ana Teixeira transita por diferentes meios, com interesse pelo desenho e pela arte participativa, tendo a literatura e o cinema como suas principais referências. Se interessa por uma arte que propicie encontros, que se misture com a vida cotidiana e resulte em possíveis repercussões nos participantes.

Sigamos com mais corpos e mais escutas…

O grupo Vozes Agudas: mulheres na arte é formado por Ana Paula Monteiro Nagano, Bia Mantovani, Cal Kielmanowicz, Emily Mayumi, Juliana Caffé, Karina Sérgio Gomes, Letícia Ranzani, Mariana Lorenzi, Sol Casal, Talita Trizoli, Tania Rivitti e Thais Rivitti.

 

Categorias
Conversas Cursos HISTÓRIA DA ARTE Novidades

Curso Básico de História da Arte Brasileira: A Vez das Mulheres Contarem essa História

 

Você sabia que apenas 6% do acervo exposto no Museu de Arte de São Paulo (Masp) são de obras de artistas mulheres? Esse dado foi levantado pelas ativistas e pesquisadoras de arte do coletivo Guerilla Girls, quando vieram expor os resultados de suas pesquisas na instituição. Acontece que, na história da arte brasileira, muitas mulheres tiveram papel de destaque, que nem sempre é reconhecido.

A fim de valorizar esse protagonismo, o Curso Básico de História da Arte Brasileira: A vez das mulheres contarem essa história procura mostrar a atuação de quatro artistas em quatro momentos importantes do cenário artístico nacional.  A consolidação da Escola Nacional de Belas Artes e o início de um sistema e mercado de arte, por Georgina de Albuquerque (1885 – 1962); o Modernismo, por Anita Malfatti (1889 – 1964); Arte Concreta e Neoconcretismo, por Lygia Pape (1927-1994); Arte Conceitual, Videoarte e Instalação, por Regina Silveira (1939).

O objetivo deste curso é apresentar a história da arte brasileira para leigos e interessados por meio da vida e obra de quatro artistas, dando destaque à produção feminina. Aprofundar questões sobre os movimentos artísticos de que participaram por meio de contextualização histórica e apresentação de obras.

Quem pode fazer o curso?

Todos que queiram aprender um pouco sobre a história da arte nacional. Não precisa ter nenhum conhecimento anterior. Basta querer conhecer mais sobre nossas artistas.

Quando: Dias 06 e 13 de abril das 10h às 13h

Onde: Ateliê Ju Amora (Rua Itapicuru, 541)

Quem dará o curso?

Karina Sérgio Gomes é jornalista, especialista em gestão cultural e pesquisadora de arte contemporânea. Atualmente, dedica-se ao mestrado dentro da linha Abordagens teóricas, históricas e culturais da arte no Instituto de Arte da Universidade Estadual Paulista (IA-UNESP). Já ministrou curso de história da arte brasileira na Casa Guilherme de Almeida. Em 2014, fez parte da curadoria coletiva da exposição Vestígios, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP).

Faça a sua inscrição: https://goo.gl/forms/Wyfupa732iK2nnbb2

Categorias
Novidades podcast

PODCAST #6 Pergunta que eu respondo – Onde estão as mulheres na história da arte brasileira?

Você já se perguntou quantas artistas mulheres conhece? Não vale falar Tarsila do Amaral, Anita Malfatti ou Lygia Clark. Nesse podcast, eu comentei sobre a ausência de nomes de artistas mulheres na historiografia das artes brasileira, sobre um novo curso que vou dar e dessa minha ansia por conhecer as nossas artistas. Você também sente isso? E aí, vamos conversar? Me conta depois o que achou, mande sua crítica e sugestão para: ksergiogomes@gmail.com. Me siga no Instagram: @ksergiogomes

Ouça também no Spotify: https://open.spotify.com/episode/6GovRN9pxrnVkQqkcjwoS9

Para ouvir os outros, clique aqui

 

Link do meu artigo sobre a Regina Silveira aqui: bit.ly/2UDXtg6

Categorias
Conversas Novidades Outros Projetos Vídeo

CONVERSAS – KATIA FIERA

No CONVERSAS #4, a artista visual Kátia Fiera fala sobre como é o seu processo criativo, sua relação com a cidade, livros de artistas e suas experimentações com o desenho que estão ganhando cada vez dimensões maiores.

Categorias
CONTEÚDO Novidades Revista Revista da Gol

Pinceladas – Revista GOL

Ei você que está viajando de @voegoloficial, aproveite para ler essa conversa com três pintores de diferentes gerações, mediada por essa que vos escreve.
Julia Szabó, Paulo Pasta e Dudi Maia Rosa conversam sobre o ofício e os desafios de ser artista.

GOL195_PINCELADAS

Categorias
CONTEÚDO Novidades São Paulo Review Web

Marilá Dardot: uma artista entre os livros

Entrevista com a artista Marilá Dardot para o site São Paulo Review.

* Por Karina Sérgio Gomes *

A artista visual Marilá Dardot cresceu entre livros. Nascida em Belo Horizonte, o pai da mineira foi o maior incentivador para que ela se interessasse por literatura. O amor pelas palavras fez com que as frases, versos, letras e livros entrassem de forma natural na sua arte. Depois de uma primeira formação em Comunicação Social, Marilá foi estudar artes visuais na Escola Guignard, em 1997. Percebeu que estava pela primeira vez diante de um trabalho que reconhecia como uma obra, quando realizou “O livro de areia”, de 1999, inspirado no conto homônimo do argentino Jorge Luís Borges. “Foi a primeira algo que me fez pensar: ‘isso aqui é o meu trabalho’”. Desde então, as palavras, a literatura e os livros não saíram mais do repertório visual dessa artista que aprecia também a fisicalidade do objeto e não gosta de ler PDF.

Atualmente, Marilá vive em Portugal. Um dos dramas de trocar de país por tempo indeterminado foi se separar da sua biblioteca. Nessa entrevista para a São Paulo Review, a artista conta sobre a sua relação com a literatura e diz que considera os autores com os quais trabalha seus colaboradores.

DSC_0033_tratada

Antes da sua formação em artes visuais pela Escola Guignard, você se formou em Comunicação Social. Fale um pouco sobre essa primeira formação. 

Quando saí da escola, não tinha um caminho claro do que queria fazer. Cheguei a prestar vestibular para artes plásticas na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mas, na época, você fazia primeiro um teste de aptidão e eu não passei. Também não sabia se queria ser artista. Porém, passei na minha segunda opção, que era Comunicação Social. Cheguei a fazer um semestre de jornalismo, mas vi que não era isso. Então, passei para Rádio e TV. Provavelmente, se eu não tivesse feito comunicação antes, aos 18 anos, eu não teria me tornado artista. Naquela época, eu não tinha maturidade para desenvolver um trabalho próprio. Enquanto eu estudava Comunicação Social, pude fazer algumas matérias na Faculdade de Filosofia, outras na Letras. Tive aulas de semiótica que foram superimportantes. Depois que eu me formei, comecei a trabalhar com publicidade. E logo vi que não queria aquilo para minha vida. Foi quando entrei para Escola Guignard, já com uma bagagem tanto de vida quanto de teoria.

De onde vem o seu interesse pela literatura? 

A literatura sempre fez parte da minha vida. Sempre fui leitora. Meu pai, que era arquiteto, gostava muito de ler e me dava muitos livros. Toda semana me trazia um. Eu comecei a ler muito por causa dele. Às vezes, ele estava lendo um livro e me contava a história adaptando para o universo infantil.

Como a literatura entrou para o seu trabalho de arte? 

Em 1999, tinha acabado de sair o Diário da Frida Khalo (da editora José Olympio). Nessa época, ficou muito em alta o livro de artista, mas sabia que aquilo eu não queria fazer. Nesse mesmo ano, a partir do conto “O livro de areia”, de Jorge Luís Borges, fiz um livro feito de espelhos e dei o mesmo nome. Foi a primeira arte que fiz algo que me fez e pensar “isso aqui é o meu trabalho”. E ele condensa questões que vão permear minha obra no futuro: além da literatura, a participação do espectador.

Você entende a releitura de um livro para uma obra de arte como uma adaptação para o cinema? 

Gosto de pensar como um diálogo. Mais do que uma adaptação, acredito que seja uma colaboração. Eu considero um pouco esses autores como colaboradores. É um diálogo com aquela obra. Com o que ela me fez querer dizer, para aonde que ela me leva, o que que ela suscita. Eu não estudei literatura, é uma relação de leitora, mesmo quando eu uso obra de filosofia. Mas eu acho que são sempre usos atrevidos sem nenhuma pretensão acadêmica. O trabalho reflete mais as minhas sensações quanto leitora.

Não apenas a literatura faz parte do seu trabalho, mas o livro como um objeto também está muito presente. Comente um pouco sobre essa sua relação com esse objeto. 

Gosto do objeto livro, não gosto de ler PDF. O começo da minha biblioteca foi com alguns livros roubados da biblioteca dos meus pais e outros comprados em sebo, que trazem a história do objeto. Eles têm marcas de leitura, coisas encontradas. Esses itens encontrados inspiraram o trabalho “Sebo”, feito em parceira com o artista Fábio Morais. O livro aparece no meu trabalho também como um objeto escultórico, como em “Terceira margem” (2007) e “Volta ao dia em 80 mundos” (2013) “O livro das mil e uma noites” (2014). Quando fiz uma residência em Viena, foi a primeira vez em que fiquei um tempo em um lugar em que eu não falava a língua. Eu visitava os sebos e achava os livros lindos, mas não tinha a mínima ideia do que estava escrito. Porém achava linda a paleta de cor. E comecei a ficar fascinada. Todas as vezes que viajo para algum país em que desconheço o idioma, eu sempre vou atrás dos livros antigos, em sebo, para saber se a paleta de cor muda, como são as guardas. Quando fui para a Eslováquia, que tem uma grande tradição de desenho de animação, percebi que as guardas eram superilustradas. Eu comecei a perceber que o design dos livros traduziam uma cultura. Essa pesquisa resultou na série “Minha Biblioteca” (2014-2018).

Você disse em uma entrevista que o seu processo de criação é um tanto caótico. Em geral começa com uma imagem ou com uma palavra? 

Às vezes, é um texto ou um livro. Às vezes, é da obra mesmo. Para o Parque das Esculturas, em Londres, eu queria fazer esse um muro de espelho com uma frase transparente, que atravessasse o espelho revelando a paisagem por detrás dele. Então, veio primeiro a imagem do trabalho para esse lugar em específico. Fui à minha biblioteca e peguei um livro de poemas da Patti Smith. O livro tinha um post-it. Na página marcada, li a frase: “the landscape is moving”. O verso era exatamente o que eu queria colocar no muro (de 2013, que leva o mesmo nome). Talvez eu tenha criado o trabalho a partir daquela frase sem saber e, no final, as coisas se juntaram.

Você já pensou em escrever um livro ou se dedicar à escrita? 

Em alguns trabalhos escrevo um pouco. Mas nunca pensei a sério nisso. Quando eu fazia comunicação, cheguei a escrever uns contos. Sempre gostei muito de escrever cartas. No caso das minhas cartas, eu escrevo com uma preocupação estética da escrita. Com o desejo de que ela cause uma recepção estética, como se a forma pudesse provocar uma reação. A editora Par(ent)esis editou em 2009 um livro de cartas trocadas entre mim e Fabio Morais, o “blá blá blá”. Eu e Fabio também temos um trabalho em video, o “Correspondência”, de 2008, em que trocamos “e-mails” datilografados A gente parou de escrever cartas, é uma coisa que vem se perdendo. Hoje, a gente manda Whats’app. O emoji é tudo que abomino. É a maior massificação de qualquer sentimento. As sutilezas e a subjetividade da escolha das palavras não existem num emoji. Estou lendo o livro Cartas a los Jonquières, do Cortázar, que reúne suas cartas à família Jonquières desde quando ele foi morar na França, em 1950. São cartas em que descobrimos sobre seus processos de trabalho, lemos trechos de contos, o nascimento dos cronópios, observações sobre exposições que visitou, mas também falam de assuntos práticos e corriqueiros: listas de livros para comprar, questões que envolvem dinheiro.

Você sublinha seus livros e faz marginalizas? 

Não, eu não rabisco livros. Eu sempre coloco post-its.

Porém no trabalho “Avant et après la lettre”, você picota os livros. 

Para esse trabalho eu escolhia livros sem valor literário, abandonados em sebos, que não me provocavam pudor em destruir. Mas, de certa forma, este trabalho anuncia um pouco um distanciamento da minha obra da minha biblioteca, dos meus autores admirados, para outras narrativas, como os discursos da mídia impressa.

Você está morando em Portugal. Como é viver longe da sua biblioteca? 

Na primeira viagem, eu trouxe apenas cinco livros. Aí, todas as vezes que vinha do Brasil, trazia mais alguns de filosofia e mais alguns autores que eu não consigo viver sem, como Roberto Bolaño, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Murilo Mendas, Ana Cristina César, Manoel de Barros… Mas a biblioteca vai crescendo com os livros que vou comprando por aqui. Agora o problema vai ser voltar com os livros.

Marila_Dardot_O_Leitor_2017_Instalation_18_32x245x32cm

Categorias
Conversas Novidades Outros Projetos Vídeo

CONVERSAS #4: FLÁVIO CERQUEIRA

Na minha singela opinião, bons artistas são aqueles que provocam um “UAUUUU”, seja silencioso ou sonoro. Uso a onomatopeia porque esse primeiro impacto, em geral, não vem verbalizado. É catártico. Depois a poeira vai baixando, as camadas vão se apresentando e você começa a refletir tudo aquilo que o trabalho está querendo dizer, mas que as palavras têm dificuldade de se juntar e organizar as primeiras ideias. O trabalho do FLÁVIO CERQUEIRA provocou exatamente esses sentimentos conflituosos em mim.

Primeiro foi AIMEUDEUSQUEROISSONAMINHASALA, seguido de um embate com uma série de questões que as esculturas levantam. O segundo AIMEUDEUSCOMOASSIM!? foi quando eu descobri que aquele artista foda, que tem obras no acervo da Piconeca, estava simplesmente compartilhando a sala de aula comigo. Quase pedi autógrafo, rs. E as surpresas só aumentaram com o convívio.

O Flávio é dos artistas mais gente boa que eu já conheci. Hoje, tenho o prazer chamar de amigo e frequentar seu ateliê. E vou continuar acompanhando de perto essa carreira cujos primeiros passos corajosos foram dados cheios de sucesso (ferrou-se, Flávio, encontrou uma daquelas pesquisadoras chatas que acompanham de cabo a rabo a vida dos artistas que admira). Um dia, eu vou ser o Calvin Tomkins e vou escrever o meu As Vidas dos Artistas. O Flávio vai ser o Jasper Johns e a sua trajetória vai estar lá no meu humilde livro. Porque embora esse grande escultor domine o bronze tão bem quanto os seus mestres Rodin e Giacometti, ele quer um dia vencer os pincéis e a tela em branco.
Então, chega de chorumelas! Deixo vocês com o episódio #4 de #CONVERSAS com FLÁVIO CERQUEIRA!

Quem gostar do vídeo dá um joinha e se inscreve no canal para eu conseguir levantar uma graninha e fazer mais perfis de mentes criativas e inventivas!

Categorias
artefato.k blog Fotografias Novidades Web

Lembrei que esqueci

Amelia Toledo nos deixou na última terça-feira (7/11/2017), mas ficamos aqui na Terra com suas incríveis obras. Lembrei que esqueci, retrospectiva no CCBB, traz trabalhos que sintetizam o pensamento da artista.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Se João Cabral dizia que “Para aprender da pedra, frequentá-la”, Amelia fez isso com primazia e nos dá essa oportunidade em “Caverna”, proporcionando ao espectador que frequente quartzos, ametistas e formas rochosas.

A mostra traz ainda as incríveis pinturas e gravuras da artista, que foi aluna de Anita Malfatti, de onde já dá pra perceber os interesses e pesquisas de cor e forma de Amélia que se desdobram nas instalações interativas.

Corre lá: Lembrei que Esqueci, CCBB, R. Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 3113-3651. Seg. e qua. a dom.: 9h às 21h. Até 8/1. Livre. GRÁTIS.