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por uma causa

Peças, apresentações musicais e filmes atraem turistas e levam entretenimento e conforto aos moradores da cidade mineira

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Peça na Praça: Missa Para Clarice. Foto: Karina Sérgio Gomes

Reportagem para revista GOL. Leia a matéria completa aqui.

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pedra sobre pedra

Matéria para revista GOL sobre as cidades de Cabaceiras e Campina Grande na Paraíba.

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Com formações rochosas impressionantes, Cabaceiras, no interior da Paraíba, se destaca como cenário de produções audiovisuais; maior, Campina Grande celebra a cultura local

Veja o pdf da matéria completa aqui.

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Joia Rara

Três joalheiros trocam ideias sobre o passado e o futuro da profissão que transforma metais em objetos preciosos

Revista para a seção Três Gerações, da Revista Gol.  Veja a matéria completa aqui.

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Vinho do sertão

Matéria para revista GOL sobre a vinícola Terranova da Miolo. 

Despontando como uma das principais produtoras, a região explora o enoturismo

Onde o sol bate forte o ano inteiro e a paisagem seca da caatinga predomina, um campo verdejante desponta na região de divisa entre a Bahia e Pernambuco. Perto das margens do rio São Francisco, a produtora de vinho Miolo encontrou um solo fértil para cultivar uvas e produzir espumantes, vinhos brancos e tintos de ótima qualidade na vinícola Terranova. O tempo seco e estável aliado ao sistema de irrigação de gotejamento garantem duas safras de uva ao ano. Esse tipo de produção, chamada de viticultura tropical, é praticado em poucos lugares do mundo além do Brasil, como na Tailândia e na Índia. Mas o superintendente da Miolo, Adriano Miolo, garante: “Os vinhedos do vale do rio São Francisco possuem a mais avançada viticultura tropical do mundo”. Atenta ao potencial da região, a empresa comprou, há 17 anos, a fazenda Ouro Verde, onde havia um parreiral, para ampliar sua produção. E, desde 2011, abre suas portas para quem quiser conhecer a plantação, a área de fabricação e degustar alguns dos melhores rótulos da casa – que também podem ser provados na Classe GOL Premium dos voos internacionais da GOL.

Nas águas do Velho chico

Em parceria com a Miolo, depois da visita à vinícola, o visitante pode fazer um passeio pelo rio São Francisco, na região de Sobradinho, perto de uma das maiores barragens do mundo. O barco Vapor do Vinho faz uma parada próxima a um banco de areia onde se forma uma praia de água doce, e os turistas são convidados a se refrescar. R$ 160, com almoço. vapordosaofrancisco.com.

Veja o pdf da matéria:

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Pinceladas – Revista GOL

Ei você que está viajando de @voegoloficial, aproveite para ler essa conversa com três pintores de diferentes gerações, mediada por essa que vos escreve.
Julia Szabó, Paulo Pasta e Dudi Maia Rosa conversam sobre o ofício e os desafios de ser artista.

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Revista da Gol: Seção Bate-Volta com Laura Wie

Entrevista com a empresária, apresentadora, ex-modelo e atriz, Laura Wie para a seção Bate e Volta da Revista da Gol. Laura fala sobre a superação de um câncer de mama, como manter a autoestima e seus planos para o futuro

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CONTEÚDO Editora Abril Revista veja são paulo

Dobra o número de empresas que entregam orgânicos em casa

Alimentos sem químicos nem agrotóxicos estão mais presentes nas residências da capital

Por Karina Sérgio Gomes, reportagem para revista Veja São Paulo

Em 2013, durante uma gravidez, a advogada Carolina Flomenbaum resolveu mudar seus hábitos alimentares e passou a procurar produtos orgânicos. Mas, sem tempo de ir à feira e diante da pequena variedade nas prateleiras dos mercados tradicionais, sentiu que seu plano corria risco.

Nessa época, descobriu serviços de delivery de artigos desse tipo. “Agora, em cinco minutos, encho a geladeira por uma semana, sem sair de casa”, diz ela, moradora de Pinheiros. Cenas como essa são cada vez mais comuns nos lares paulistanos.

Hoje, atuam por aqui pelo menos vinte companhias que oferecem a entrega de alimentos livres de aditivos químicos na residência dos clientes. Cerca de metade delas surgiu no último ano.

Um exemplo é a Do Sítio, lançada em outubro pelo designer Renato Borges, para vender os produtos cultivados no sítio da família, em Atibaia, a cerca de 60 quilômetros da capital. “Em seis meses, dobramos o tamanho da horta para atender a uma média de cinquenta pedidos por mês”, comenta ele.

O negócio está se expandindo por causa da demanda da freguesia. A procura por esse tipo de comida cresceu 20% no Brasil no último ano, segundo o Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável. De 2015 para cá, o número de produtores no Estado de São Paulo triplicou, ultrapassando 1 700.

As empresas de delivery atuam de maneira semelhante. A lista de alimentos — entre hortaliças, legumes, frutas, ovos, carnes e sucos — é disponibilizada em um site ou por WhatsApp, geralmente aos domingos. Os clientes selecionam o que desejam e enviam o pedido. Em dois dias, a cesta chega à casa das pessoas, de madrugada ou nas primeiras horas da manhã, para evitar a ação do calor. Os artigos são embalados em papel e caixas.

 

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Carolina e Eduardo, da Leve Bem: galpão com oito funcionários (Alexandre Battibugli)

 

Em muitos casos, o negócio começa como um serviço informal, feito na própria residência dos comerciantes, e só depois, com o aumento da procura, se profissionaliza. Foi o que aconteceu com o Leve Bem, criado em 2013 no apartamento do casal Carolina Brenoe e Eduardo Castagnaro, na Praça da Árvore, Zona Sul.

Em poucos meses, as vendas aumentaram e os dois se viram obrigados a se mudar para Vargem Grande Paulista, a 50 quilômetros da capital, para se aproximar dos fornecedores. Em quatro anos, a empresa quintuplicou de tamanho e passou a registrar faturamento mensal de 36 000 reais. Oito funcionários trabalham em um galpão, na seleção e na distribuição de 720 cestas por mês, ao preço mínimo de 50 reais cada uma.

“Entramos nesse ramo para agregar um serviço à atividade dos produtores, mas não imaginávamos que iríamos tão longe”, conta Carolina. O empresário Claudio Uwada abriu o site Orgânicos da Vila para aumentar as vendas dos itens orgânicos que cultivava no sítio da família em Suzano, na Grande São Paulo, há quatro anos. “No começo só atendia pessoas de classe média alta, mas hoje tenho clientes de todos os tipos.” Ele chega a entregar 240 cestas por mês.

O consumidor que quiser entrar nessa onda deverá estar disposto a desembolsar valores mais altos que os praticados na feira do bairro. O custo de produção de orgânicos é até 40% maior que o dos convencionais, por causa dos gastos com o tratamento da água e do solo, a compra de adubos naturais (mais caros que os químicos) e a obtenção de certificações das associações de produtores.

Além disso, sem agrotóxicos, há o risco de perda da safra por pragas. Diferentemente do que ocorre nas grandes redes de supermercados, nem sempre o item desejado estará à disposição, o que vai depender da época do ano — caso do morango, de agosto a outubro, por exemplo.

Os clientes, no entanto, não parecem se incomodar. “Com esses serviços, temos a garantia da qualidade”, diz a engenheira Nifna Santana, de 30 anos, moradora do Pacaembu e cliente da Do Sítio. “Isso sem contar a comodidade de receber em domicílio.”

Do Sítio. http://www.do-sitio.comola@do-sitio.com.
Leve Bem. ☎ 98709-7448, www.levebemdelivery.com.br.
Orgânicos da Vila. ☎ 94154-4147, www.organicosdavila.com.br

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Editora MOL jornalismo Revista Revista Sorria

Após a tempestade

reportagem de capa para edição #17 da revista Sorria
A natureza é turbulenta. Assim também é nossa vida. Vítimas e culpados, cada um de nós está sujeito a inundações de mágoa e rancor. Mas podemos, por entre as nuvens pesadas, resgatar um facho que restaure a paz. A chave para isso é o perdão
Texto: Karina Sérgio Gomes // Fotos: Rodrigo Braga // Photodesign: Felipe Gressler // Beleza: Élcio Aragão (Maizena) (Agência First) // Produção de moda: Marcelo Ultra

 

Perdoar é… optar por sofrer menos, como Masataka, que se livrou da vontade de vingar a morte do filho

29 de agosto de 1997. Masataka Ota e sua esposa, Keiko, fechavam mais um negócio para expandir a rede de lojas de R$ 1,99 do casal, em São Paulo. Costumavam voltar para casa sempre depois das 19 horas, mas naquele dia Masataka quis retornar mais cedo. Às 19h10 estavam na rua em que moravam. Chegariam antes, não fossem os semáforos vermelhos e o trânsito lento pelo caminho. A poucas quadras da residência, Keiko comentou ao ver viaturas da polícia:

– Que será que houve no vizinho?

Assim que estacionaram, a filha mais velha, Vanessa, trouxe a notícia:

– Sequestraram o Ives.

Dez minutos antes, um motoboy disfarçado de entregador de flores havia invadido a casa dos Ota e levado consigo o caçula de 8 anos.

Nos 11 dias seguintes, Masataka quase não dormiu. “Ficava ao lado do telefone, com um bule de café e o maço de cigarros, esperando uma ligação”, lembra. Os criminosos fizeram três contatos, exigindo bilhões de reais.

Em 11 de setembro, o telefone tocou novamente. Era a polícia, dizendo que havia encontrado Ives. Antes de ouvir o fim da notícia, a família começou a comemorar. Então desabaram ao saber a verdade por inteiro: Ives fora achado, porém morto. Os sequestradores haviam assassinado o menino na madrugada do dia 30 de agosto, horas depois de o terem capturado. Apelaram para a maior das barbáries quando perceberam que o garoto os havia reconhecido. Dois dos três criminosos eram seguranças de uma das lojas de Masataka.

“Quando a gente vê um filho no caixão, o que vem é o ódio, a vontade de se vingar”, conta o pai. “Logo após o enterro eu vou buscar esses caras de qualquer jeito”, pensava. E começou a planejar a represália. O julgamento seria o dia perfeito. Na véspera da audiência na corte, Masataka pegou a arma que tinha em casa, limpou-a com cuidado e a encheu de balas. Ia entrar no tribunal atirando.

Sem conseguir dormir, buscou amparo no altar que tem na sala de casa. “Deus, dizem que o Senhor é tão bom. Por que permitiu isso?”. Rezou até a exaustão, e enfim pegou no sono. No dia seguinte, em vez da arma, levou a Bíblia.

A fim de preservar Masataka, o juiz pediu para que ele reconhecesse os indiciados através do olho mágico da sala onde estavam. Mas o empresário preferiu abrir a porta e ficar cara a cara com eles. “Olhem para mim! Olhem para o pai do garoto que vocês mataram, se são homens!” Os três, algemados, permaneceram de cabeça abaixada. Num ímpeto, Masataka disse algo cujo significado completo só entenderia algum tempo depois: “Eu não vim aqui para matá-los. Vim para perdoar cada um de vocês”.

Dos deuses aos homens

Em meio a um turbilhão de sentimentos, Masataka utilizou-se de um recurso tão poderoso que, durante muitos séculos, foi considerado restrito às divindades. No Velho Testamento, é a Deus que todos se voltam em busca da expiação das culpas. E ainda hoje as religiões mantêm rituais em que os erros são confessados às forças divinas em troca da absolvição.

Os especialistas divergem sobre o momento histórico em que o perdão se tornou passível de ser concedido por meros mortais. Segundo o professor de psicologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Júlio Rique Neto, que dedicou o doutorado ao assunto, a indulgência se tornou humana no início da Era Cristã: “Ao catequizar os homens, Jesus Cristo ensinou que todos teriam o poder de perdoar e pedir perdão. Com essa atitude, o ritual deixou de ser exclusivamente divino”. Outros dizem que isso só aconteceria no século 18, quando os iluministas pregavam a autonomia moral do homem em relação a Deus.

“O perdão é para você, e para ninguém mais.
É a sensação de paz que emerge quando você
se torna herói, e não vítima, da história que relata”

Talvez a humanidade tenha inicialmente identificado o perdão como divino devido ao seu caráter antinatural. “Toda ação requer uma reação, segundo a definição biológica. Quando você perdoa, acontece uma quebra, porque não há a reação”, explica o filósofo Mário Sérgio Cortella, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Segundo ele, perdoar é um conceito ético, um comportamento ligado ao que há de nobre na condição humana.

Vencer essa tendência à retaliação exige tempo e esforço. E foi isso que Masataka começou a descobrir naquele dia no tribunal. Logo depois de depor, ele foi embora. Soube da sentença pelos jornais. O motoboy Adelino Donizete Esteves foi condenado a 43 anos de prisão. E os seguranças (que também eram policiais militares) Paulo de Tarso Dantas e Sérgio Eduardo Pereira de Souza, a 45.

Mesmo assim, Masataka não estava em paz. “Às vezes, estava dirigindo e a imagem dos  três vinha à minha mente. Eu socava o volante do carro e brecava bruscamente”, lembra. Para conseguir dormir, bebia meia garrafa de uísque.

No começo dos anos 2000, um programa de TV chamou a atenção do empresário. Era o quadro A Hora da Verdade, apresentado no Fantástico, no qual vítimas e criminosos eram postos frente a frente. Masataka decidiu participar. Enquanto combinava os detalhes com a equipe de jornalistas, voltou a maquinar a vingança: “Vai ser a oportunidade de ficar próximo dos três. Vou matá-los de uma vez só”.

No dia anterior à gravação, novamente buscou forças na espiritualidade. Por mais de uma hora, repetiu a si mesmo: “Eu amo. Vocês, Paulo de Tarso, Eduardo e Adelino, amam também. Eu e vocês somos um só perdão de Deus”. Quando chegou ao presídio, em Avaré (SP), Masataka ficou confuso. Não sabia se desistia de encontrá-los, se planejava uma agressão ou se enfim os perdoava.

Aos poucos, retomou a calma e entrou na sala para ficar de frente com o criminoso – apenas um dos sequestradores, Adelino, aceitou participar do programa. “Sabe o que vim fazer aqui?”, perguntou Masataka. “É duro para um pai perdoar o assassino do seu filho. Mas eu estou aqui para te salvar.” O criminoso ficou em silêncio. Quando acabou a gravação, o empresário o chamou novamente: “Você tem uma filha, né?”. Adelino arregalou os olhos. “Desejo a ela o contrário do que você fez com o Ives. Que ela cresça, case-se, tenha filhos e seja feliz.”

Dessa vez, Masataka sentiu que conseguira perdoar de verdade. “Quando saí do presídio, foi como se tivesse deixado todo o peso do ódio e da vontade de vingança atrás daquele  portão. Daquele dia em diante, passei a dormir melhor”, conta. Ele ainda tentou se encontrar com os outros dois sequestradores, mas os criminosos não aceitaram vê-lo. “Hoje, eles não me interessam mais. Agora estou bem comigo mesmo. Eu não fiz isso só por mim, fiz pelo meu filho também. Eu acho que ele está feliz agora.”

As palavras de Masataka deixam claro que, ao decidir perdoar, ele estava pensando mais em si do que nas pessoas a quem dirigiu a desculpa. Será esse um comportamento errado, egoísta? O psicólogo Fred Luskin, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, acha que não. “O perdão é para você, e para ninguém mais”, afirma o especialista no livro O Poder do Perdão (Editora Francis). “É a sensação de paz que emerge quando você assume a responsabilidade sobre como se sente, e torna-se um herói e não uma vítima na história que relata. Significa que, embora ferido, você opta por sofrer menos”, completa.

Além de fazer bem para quem perdoa, a prática beneficia toda a sociedade. “Você pode ajudar muitas pessoas com o exemplo de como superou a adversidade e a dor”, afirma Fred. E é isso que Masataka, hoje com 54 anos, e sua esposa, Keiko, da mesma idade, têm feito. Após a morte do filho, eles criaram o Instituto Ives Ota, que ajuda vítimas de violência. Por mês, o casal chega a dar 30 palestras pregando a importância do perdão. “Quero que nossa atitude seja propagada”, afirma o pai.


Ser perdoado é… receber uma chance de reerguer a vida e as relações afetivas. como a ex-viciada em drogas Milena

Ritual de recomeço

Perdoar só depende de nós: Masataka nunca ouviu um pedido de desculpa, mas isso não foi impedimento para que optasse por concedê-la. Já ser perdoado é diferente. Pode exigir um esforço individual tão grande quanto o de quem perdoa, e ainda tem a necessidade de encontrar no outro a mesma disposição de superar o ocorrido. Foi o que aconteceu com Milena Gertner, de 22 anos.

Aos 14, ela passou a ser observada diariamente por um detetive particular. Foi o que sua mãe, Sulamita, decidiu fazer quando descobriu que a filha estava consumindo álcool e maconha. “Eu só podia ir da escola para casa e da casa para a escola. Qualquer desvio no caminho, minha mãe era acionada”, conta.

A estratégia funcionou por dois anos, período no qual Milena ficou afastada das drogas. Mas, aos 17, quando ela entrou na faculdade, a vigilância materna afrouxou, e a filha se sentiu livre para fazer o que viesse à telha. Além de maconha, ela passou a usar cocaína. “Não me drogava mais para me divertir. Era uma necessidade de sobrevivência”, diz.

Aí a vida inteira desandou. A fim de conseguir dinheiro para comprar drogas, Milena passou a assaltar e chegou até a se prostituir. Fugia de casa, ficava dias sem dar notícias e maltratava a família. Sua irmã Camila, na época com 13 anos, às vezes a seguia para tentar impedi-la de se drogar. Certa vez, encontrou-a já bem alterada, usando cocaína na rua, e tentou tirar-lhe o pó. Milena partiu furiosa para cima dela. “Eu fui para matar. Eu sei que ela queria meu bem, mas eu não entendia assim”, lembra Milena. Depois disso, Camila ficou com tanto medo da irmã que desistiu de dividir o dormitório com ela: mudou-se para o quarto de serviço.

Aos 20 anos, Milena já não aguentava mais o inferno em que sua rotina se transformara e decidiu pedir apoio à família. Sua mãe a levou ao Narcóticos Anônimos, onde a filha iniciou um processo de desintoxicação. Paralelamente, passou a fazer psicoterapia. Deu certo. Milena conseguiu superar o vício e passou a refletir sobre tudo o que havia aprontado naqueles últimos anos.

“Depois de um ano limpa, comecei a ter consciência do mal que eu causei aos outros”, diz. “É muito difícil assumir que você magoou pessoas que ama. Eu sou a primogênita, deveria ser um exemplo para minha irmã. Em vez disso, eu a machuquei.”

O apoio da família já era uma demonstração clara de que o período conturbado não havia rompido os laços de amor. Mas Milena sentia que devia assumir verbalmente seus atos e seu arrependimento. “Às vezes, você não precisa falar para praticar o perdão”, afirma o professor Júlio Rique Neto. “Algumas pessoas, porém, necessitam de um ritual, precisam pedir ou dizer que perdoam, fazendo daquele momento um marco do fim do rancor”, completa.

Na volta de uma das reuniões do Narcóticos Anônimos, Milena conversava amenidades com Sulamita. De repente, pairou um silêncio e ela disse:
– Mãe, desculpa aí.
– Desculpar o quê?
– Me perdoa pelo mal que eu fiz nos últimos anos?

As duas começaram a chorar. “Ela sabia  que eu não tinha feito tudo aquilo por mal. Mas eu precisava dizer a ela que esperava ser uma filha melhor”, conta. Milena também pediu perdão à irmã – e as duas voltaram a dividir o quarto. “Hoje, eu evito até ficar nervosa perto dela para não assustá-la.” A jovem também se desculpou com os amigos, dos quais tinha se distanciado, e com o dono do mercadinho perto de casa, que ela havia assaltado para comprar drogas.

“O benefício mais importante do perdão é a afirmação de que não somos vítimas do passado”, afirma Fred Luskin. “Devemos encontrar uma maneira de resolver as lembranças dolorosas. E é o perdão que fornece a chave para isso”, complementa. Oswaldo Leite Netto, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, acrescenta: “O perdoado ganha uma oportunidade de rever suas atitudes e melhorar como ser humano. Perdoar é um gesto extremo de consideração”.


Perdoar-se é… encarar o remorso e aprender com ele, mesmo quando sabemos que não tivemos culpa nenhuma. Como o médico Maurício

Paz para si

Milena reconstruiu suas relações com todos a quem tinha ofendido. Só não está certa se a questão foi resolvida consigo mesma: “Eu me arrependo muito pelo que fiz, mas não sei se consigo me desculpar”. Muitas vezes, essa é a parte mais difícil. “É generalizado o fato de as pessoas não saberem praticar o autoperdão”, diz Fred Luskin. “Muitos passam a vida aprisionados pela culpa e pela vergonha referentes a ações do passado.”

Esse remorso pode surgir mesmo quando temos consciência de que os fatos que lamentamos não aconteceram por nossa culpa. Mesmo quando sabemos que fizemos o que deveríamos, e que, se tivéssemos uma nova chance, agiríamos da mesma forma.

A história do ortopedista Maurício Monteiro, de 59 anos, é assim. Em 1978, ele trabalhava no hospital Stella Maris, em Guarulhos (SP). Uma noite, uma senhora com mais de 80 anos chegou à emergência com o fêmur fraturado. Fez-se uma série de exames, os quais garantiram que ela tinha condições de passar por uma operação. No dia seguinte, ao lado da maca, Maurício a acompanhava à sala de cirurgia.

– Doutor, eu não quero ser operada. Acho que vou morrer.
– Calma, não tem por que ter medo.

Tinha tudo para ser um procedimento simples. Durante a cirurgia, porém, a pressão da paciente baixou e ela não conseguia respirar. Maurício interrompeu a operação. A equipe tentou reanimá-la. Mas a senhora não resistiu.

“Não somos vítimas do passado. Devemos encontrar
uma maneira de resolver as lembranças dolorosas.
E é o perdão que fornesse a chave para isso”

Era a primeira vez que Maurício perdia um paciente. “Na hora eu pensei que talvez não tivesse sido correto, porque ela havia pedido para não ser operada”, lembra. Pelo resto daquele dia, e muitas outras vezes durante a vida, a imagem daquela mulher surgiria em sua mente. “Eu me sentia culpado por ter abreviado a vida dela. Não pela cirurgia. Porque, se eu não a operasse, ela viveria, com sorte, em torno de uma semana. Não poderia nem sentar-se e, naquela idade, certamente teria complicações”, explica.

Hoje, ele sabe que fez o certo. Não se sente culpado nem se arrepende. Mas aquele plantão segue vivo em sua memória. Como um lembrete da responsabilidade de sua profissão. Como uma experiência que o transformou em alguém mais consciente das lições da vida.

Seja a si mesmo ou aos outros, perdoar não é esquecer. É aceitar que muitas coisas não estão sob o nosso controle. Que injustiças e perdas – algumas permanentes – acontecem. Que todos somos passíveis de erros. Mas também é entender que, se a natureza nos fez capazes de magoar, por outro lado nos conferiu a possibilidade de reconhecer a falha e mudar de comportamento. E, se sentimos rancor, também sabemos oferecer uma nova chance. O perdão exige tempo, esforço, reflexão. E talvez por isso mesmo seja uma força tão poderosa e transformadora. Não consegue evitar tempestades, é verdade. Mas permite que, depois delas, venham a paz e o recomeço que inspiram as calmarias.

 

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Camuflagem corporal

Por Karina Sérgio Gomes

Era verão de 1963 e o jovem Arno Rafael Minkkinen, 18 anos, aproveitou o dia de folga do trabalho como salva-vidas em um acampamento de escoteiros e viajou cerca de 30 km para assistir a 8 1/2, de Federico Fellini, em um cinema de Nova York. O surrealismo do clássico do cinema italiano e mundial influenciaria para sempre o jovem imigrante finlandês, que na época sonhava em escrever um grande romance americano, ideia que caiu por terra ao descobrir, aos vinte e poucos anos, que “queria ser um artista de si mesmo”. Ou seja, fazer ousados autorretratos mimetizando seu corpo em paisagens inóspitas ou em situações inusitadas. “A câmera me trouxe a possibilidade de escrever esse romance com imagens em vez de palavras”, diz.

Minkkinen nasceu na Finlândia em 1945 e mudou-se com a família para os Estados Unidos em 1951. As primeiras fotos que fez, segundo ele, eram as mesmas que via nas revistas e propagandas, que retratavam cavalos, vacas, cidades, pessoas… “Quando as imagens entravam no meu visor, deveria pensar nelas da mesma forma que tinham me ensinado a escrever na escola, quando estudei Hemingway: fazê-la de modo curto, simples e com frases extremamente elegantes”, lembra.

A fim de encontrar um estilo e aprimorar o seu conhecimento fotográfico, ele tentou entrar três vezes na escola Rhode Island School of Design até ser aceito em 1971. Para saber com quem poderia estudar, o jovem foi ao Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) para olhar os trabalhos dos fotógrafos que lecionariam naquele ano. E o time não poderia ser melhor: Robert Frank, Bruce Davidson, Aaron Siskind, Paul Caponigro e Diane Arbus.

Minkkinen aprendeu um pouco sobre cada um, mas ficou estupefato com o trabalho de Arbus. Inscreveu-se então para assistir às suas aulas, que infelizmente não ocorreram: Arbus morreu em julho daquele ano. Quem a substituiu no semestre foi John Benson, que ao ver as fotos do jovem fotógrafo disse sorrindo: “Pegue um dia de folga”. Minkkinen seguiu o conselho do professor e não fez nada na quarta-feira. Quando acordou na quinta pela manhã, produziu o primeiro autorretrato com seu corpo totalmente nu refletido em um espelho num gramado. “Hoje, quase meio século após ter feito essa foto, olho para ela e percebo que pouca coisa mudou na maneira como faço as minhas imagens”, diz.

O fascínio pelas paisagens se deu quando Minkkinen fez uma viagem para a Finlândia em 1973. Aquela era a primeira vez que ele voltava para a terra natal desde que havia emigrado com os pais para os Estados Unidos. “As memórias da infância saltaram na minha mente. Não conseguia acreditar quão lindos eram os lagos e florestas da Finlândia. Ainda não era um fotógrafo profissional, mas aquelas imagens passaram a fazer parte das minhas referências visuais”, lembra.

Depois que se formou, ele foi convidado para dar aula na Universidade de Arte e Design de Helsinki, capital finlandesa, onde ministra algumas aulas até hoje, embora atualmente esteja baseado em Massachusetts (EUA), onde leciona na University of Massachusetts Lowell . Nesse período, sua relação com a natureza se aprofundou, concretizando o trabalho de autorretrato inserido nas paisagens. “Minhas primeiras imagens feitas na Finlândia me confirmaram a santidade da nudez. A nudez essencial que rodeia tudo na natureza nos rodeia também”, escreveu no livro Homework: The Finnish Photographs, frase que sintetiza bem todo o seu trabalho.

Confiar na câmera

Embora o fotógrafo diga que continua a fazer imagens do mesmo jeito que fazia quando começou, o grau de dificuldade dos autorretratos foi aumentando. Imerso na água, à beira de um penhasco, em cima de árvores, enterrado na neve… E ele os faz, em 99% das vezes, sozinho. O único assistente é um tripé. “Muitos autorretratos são difíceis de realizar. Alguns podem até ser perigosos. E não quero ter alguém correndo riscos e assumindo perigos. Nós sabemos o quanto podemos tolerar de dor e nos arriscar, mas não sabemos o que o outro pode aguentar. Algumas das minhas fotos podem parecer simples, porém, na realidade, elas testam qual é o limite do corpo humano”, explica.E o segredo para realizá-las é confiar no que a câmera está vendo.

O primeiro equipamento de Arno Minkkinen foi uma Linhof 4×5 herdada do pai. “Era como dirigir uma Ferrari sem ter carteira de motorista”, brinca. De meados dos anos 1960 até o começo da década seguinte, ele foi redator em uma agência de publicidade. E calhou de trabalhar para a marca Minolta, para a qual criou o slogan: “O que acontece dentro de sua mente pode acontecer dentro de uma câmera”, e acabou se apaixonando por fotografia. Devido a esse envolvimento com a marca, Minkkinen tinha à sua disposição lentes e câmeras da Minolta.

Com uma Minolta SRT 101 fez os primeiros trabalhos. Ele usou ainda uma Minolta Autocord, uma Pentax 6×7 com empunhadura de madeira até se render aos equipamentos digitais. Hoje usa uma Canon DSLR profissional.

Nove segundos

Se para muitos fotógrafos uma imagem surge a partir de um assunto, para Minkkinen, só começa quando ele pode ser o tema. “Componho a foto no visor. A partir da cena, imagino como posso me inserir nela depois. Uma vez que já tenho tudo planejado, o mecanismo acionado é o auto-timer”, diz. Em média, o fotógrafo tem apenas 9 segundos para se posicionar antes de a câmera disparar. Nos trabalhos em que precisa ficar debaixo d’água ou se enterrar na neve, costuma levar um disparador remoto para ganhar um pouco mais de tempo para posar. “Mas seja qual for a metodologia que eu escolha, tenho de imaginar o que a câmera vai capturar quando for acionada”, ressalta.

Metade do resultado é de responsabilidade dele, e a outra metade é do equipamento. “Aprendi a confiar no que a câmera e a lente enquadram no momento do disparo. O que foi capturado é o que o espectador verá”, resume, alertando para o fato de que não há manipulação em suas fotos. Antes, ele precisava esperar cerca de duas semanas para saber o resultado. Hoje, com o equipamento digital, essa surpresa foi antecipada para minutos depois da execução. Contudo, para Minkkinen a emoção é a mesma. “A esperança e a apreensão não mudaram. É sempre tão emocionante, e essa emoção é a força motriz que me mantém trabalhando durante esses 45 anos”, diz o fotógrafo finlandês.

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Vivian Maier: Uma Baba Quase Perfeita

Ela foi descoberta por acaso e comparada a grandes mestres da fotografia. Sua obra chegou ao público por meio de livros e um documentário que concorreu ao Oscar

Por Karina Sérgio Gomes

Na década de 1960, Vivian Maier passeava pelas ruas de Chicago com uma Rolleiflex pendurada no pescoço. Os registros que fazia da cidade são considerados, hoje, do mesmo nível de fotógrafos como Walker Evans, Robert Frank e Diane Arbus. O que diferencia Vivian desses grandes mestres é o fato de ela ter passado a vida toda no anonimato. Nos anos em que disparava sua Rolleiflex para captar flagrantes das ruas do noroeste de Chicago, Vivian Dorothea Maier ganhava a vida trabalhando como babá.

Todo o trabalho fotográfico dela continuaria desconhecido se não tivesse sido encontrado ocasionalmente pelo corretor de imóveis e historiador John Maloof, que revelou ao público parte do acervo dessa fotógrafa até então desconhecida.

O trabalho dela rendeu o documentário A Fotografia Oculta de Vivian Maier, que concorreu ao Oscar de 2015. E com o material foram produzidos três livros: Vivian Maier – Uma fotógrafa de rua (publicado recentemente no Brasil pela Editora Autêntica), Vivian Maier: Self-Portraits (que reúne os muitos autorretratos da babá) e Vivian Maier: Out of Shadows (a biografia dela). E Maloof promete mais uma publicação com fotos de Vivian até o fim de 2014.

MATERIAL ACHADO AO ACASO

Maloof tinha 26 anos e presidia a Associação de Preservação Histórica do setor noroeste de Chicago. Procurava por material iconográfico da região para elaboração de um livro, cujo objetivo era promover o local no mapa imobiliário da cidade. Para conseguir isso, Maloof dedicava algumas horas a pesquisas em antiquários. Certa vez, em 2007, encontrou uma caixa com velhos negativos e fotografias de cenas urbanas de 1960, na casa de leilões e móveis antigos RPN (iniciais dos donos da empresa Roger, Paul e Nancy). Arrematou a caixa com 30 mil negativos e 1.600 rolos de filmes não revelados por US$ 400.

Em casa, analisando o que tinha comprado, viu que as imagens não correspondiam com a região que estava pesquisando e deixou o material guardado em um armário por cerca de um ano. Até que um dia resolveu olhar novamente e, mesmo sem nenhum conhecimento sobre fotografia, ficou impressionado com a qualidade das fotos feitas por Maier. Flagrantes de cenas urbanas, retratos de crianças e transeuntes – sensíveis registros da vida cotidiana de Chicago nos anos de 1950 e 1960.

Ficou curioso e fez uma busca na internet digitando o nome que tinha nas etiquetas dos envelopes que continham na caixa: Vivian Maier. Nada foi encontrado. Nem mesmo na gigantesca base de dados do Google havia qualquer vestígio de quem era aquela mulher.

NOTÍCIA DA MORTE NO JORNAL

A primeira notícia que encontrou sobre a fotógrafa veio apenas no ano seguinte, em 23 de abril de 2009, ao ler no jornal Chicago Tribune a nota de pesar: “Vivian Maier, francesa de origem e moradora de Chicago nos últimos 50 anos, faleceu em paz na segunda-feira. Foi uma segunda mãe para John, Lane e Matthew. Sua mente aberta tocou a todos que a conheceram. Sempre pronta a dar sua opinião, um conselho, uma ajuda”. Aquela pequena nota foi como uma faísca em um baú de pólvora e transformou a vida de Maloof.

Ao procurar pelos nomes encontrados no anúncio fúnebre, descobriu que John, Lane e Matthew Gensburg eram irmãos e Vivian Maier fora babá deles por 17 anos – profissão que exerceu por 40 anos também nas cidades de Nova York e Los Angeles. Na casa dos Gensburg nunca se desconfiou de que Vivian fotografava nas horas livres e, às vezes, quando saía para passear com as crianças. Os filmes eram revelados em um banheiro transformado em laboratório.

Tudo o que Maloof descobriu a partir dessa primeira pista foi que Maier nasceu em Nova York em 1926, era filha de pai austríaco e mãe francesa, que se separaram quando ela ainda era um bebê. Maier morou na França, na cidade de Saint Julien-en-Champsaur, parte da infância e adolescência, onde também provavelmente começou a fotografar com a câmera amadora Kodak Brownie.

Ninguém sabe ao certo como ela aprendeu fotografia. Mas quando voltou para Nova York, em 1951, aos 25 anos, passou a fotografar compulsivamente – e também deu início à vida dupla de babá e fotógrafa diletante.

Quando se aposentou e passou a viver em uma casa de repouso, todos os seus pertences, inclusive o material fotográfico, foram guardados em um desses depósitos particulares. Depois de um tempo, Vivian deixou de pagar o aluguel e foi assim que as três Rolleiflex (3.5T, 3.5F e 2.8C), uma Leica IIIC, uma Ihagee Exakt,uma Zeiss Contarex, além de chapéus, roteiros de viagens, cartas, recortes de jornais sobre crimes da cidade, um gravador e um par de sapatos vermelhos e muitos rolos de filmes foram parar em casas de leilão.

REVELAÇÃO E AMPLIAÇÃO DAS FOTOS

Cinco meses depois de descobrir um pouco sobre a vida da personagem e que aquela fotógrafa genial não passava de uma simples babá, pensou: “O que devo fazer com essa coisa toda?”. A fim de compartilhar sua angústia, criou um grupo de discussão no Flickr, rede social voltada para fotógrafos, em que contava como tinha adquirido as imagens e dava o link de um blog que tinha criado para mostrar as fotos de Maier.

Como Maloof não tinha conhecimento de fotografia, perguntava aos membros do grupo: “Esse tipo de material tem qualidade suficiente para uma mostra? Ou um livro? É comum esse tipo de obra surgir assim do nada? Qualquer dica será bem-vinda”. Foram 752 respostas recebidas com dicas e sugestões do que fazer com o material. A maioria delas era confirmando a qualidade das fotos feitas pela babá.

Obcecado pela personagem, largou o ofício de corretor de imóveis e historiador para estudar fotografia, principalmente o trabalho de Maier. Transformou o sótão de sua casa em um laboratório para revelar as centenas de rolos de filmes deixados por ela – que conseguiu arrematar em outros lotes da casa de leilão.

NO RASTRO DE BABA-FOTÓGRAFA

Ao analisar os negativos e as folhas de contato, Maloof descobriu que Vivian não fotografava ao acaso. Ele ficou surpreso ao descobrir que ela conseguia captar com precisão uma cena com apenas um clique. Seguindo todos os rastros, o pesquisador encontrou outras famílias para as quais Vivian trabalhou. Soube que a fotógrafa não aceitava trabalhar em locais muito longe do centro da cidade – onde ia para fazer os registros –, que tinha personalidade reservada e só se aproximava das pessoas com um intuito: fotografar.

Algumas das pessoas que conheceram Maier e a viam caminhar com a câmera pendurada no pescoço acreditavam que a babá fazia apenas tipo e que a Rolleiflex deveria estar sem filme. Mas ela era uma fotógrafa compulsiva. A coleção de Maloof tem mais de 3 mil fotos impressas, 150 mil negativos, centenas de rolos não revelados e filmes de 8 mm.

Outro colecionador que detém uma parte da obra de Vivian é Jeffrey Goldstein, dono de 16 mil negativos, 1.500 slides e mais 30 curtas de 8 mm. De acordo com o pesquisador, quando Maier ia comprar material fotográfico, sempre se apresentava com um nome diferente.

Ela não se casou nem teve filhos. Segundo Geoff Dyer, que assina o prefácio de Vivian Maier – Uma fotógrafa de rua, a fotógrafa é um caso extremo de descoberta póstuma: “alguém que só existe unicamente das coisas que viu”.

E Maier não viu apenas cenas de Chicago. A fotógrafa viajou por vários lugares do mundo. Em 1951, no ano em que voltou para os Estados Unidos, visitou Cuba e o Canadá. Sete anos depois, fez uma viagem de quase três meses pelas Américas Central e do Sul – passando inclusive pelo Brasil, onde visitou São Paulo, Rio de Janeiro e a Amazônia. No ano seguinte, em 1959, fez uma viagem longa, de seis meses, pela Europa, Oriente Médio e Ásia.

UMA MERECIDA FAMA PÓSTUMA

Embora o trabalho de Vivian Maier não tenha sido reconhecido em vida (aliás, longa, pois ela morreu no centro de Chicago, em 2009, aos 83 anos, depois de ter escorregado e batido a cabeça), na primeira exposição em que Maloof conseguiu exibir as fotos da babá, em 2011, o crítico David W. Dunlap escreveu um longo artigo no jornal The New York Times, em que dizia: “Trata-se de uma das fotógrafas de rua mais sagazes dos Estados Unidos. As paisagens urbanas da senhorita Maier conseguem captar ao mesmo tempo a forte marca local e os momentos paradoxais que dão à cidade seu pulso. As pessoas em seus frames são vulneráveis, nobres, derrotadas, orgulhosas, frágeis, ternas e, não raro, bem cômicas”.

E o que se tem acesso hoje – três livros e um documentário de 84 minutos – é apenas a pontinha do iceberg dessa intrigante personagem que fazia interessantes autorretratos mirando-se em espelhos pela cidade. Maloof ainda tem um longo trabalho pela frente e, certamente, mais boas descobertas dessa grande fotógrafa que se escondia na simplicidade de uma babá.