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Exposição Ratos e Urubus

[Assistente de curadoria dos curadores Thais Rivitti e Carlos Eduardo Riccioppo]

No Carnaval de 1989, há exatos 30 anos, o enredo da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, de Joãosinho Trinta, levava o nome “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”. O carro abre-alas do desfile era uma alegoria do Cristo Redentor, monumento-símbolo da cidade do Rio de Janeiro, que ali aparecia como um “Cristo Mendigo”. O carro foi proibido pela Igreja de desfilar e saiu na avenida coberto por sacos de lixo, trazendo faixa na qual se lia: “Mesmo proibido, olhai por nós”. A escola levou o segundo lugar naquele ano, e durante o desfile das campeãs o carro do Cristo Mendigo foi descoberto, revelando ao público a escultura que estava escondida. 

Ver eclodirem de modo tão evidente as relações entre a formação social e política, da violência urbana à exclusão, e uma vontade de formulação de uma imagem alegórica, estética, do país levou a que esta mostra tomasse o desfile como mote. Assim, convidamos artistas para apresentar obras que de algum modo pudessem pensar, em conjunto, todas as questões que, postas tanto para as artes visuais quanto para o Carnaval, fossem capazes de propiciar uma ocasião de repensar as pontas soltas que as definições de uma cultura urbana brasileira têm deixado ao longo de todo o século passado até a atualidade.

Há muito o Carnaval surge como interesse do campo das artes plásticas ou visuais no Brasil, embora seja tratado no mais das vezes como um momento de invenção estética paralelo à produção moderna e contemporânea da arte. São muitos os assuntos que ambas as expressões culturais compartilham: em primeiro lugar, a vontade de uma produção de imagem síntese do país, o que a ideia de alegoria mobiliza; depois, a constituição de um trabalho coletivo, de manejo de gostos que variam do erudito ao popular, ao kitsch e ao pop; uma vontade de escala pública para a cultura; as questões de manualidade envolvidas no fazer artístico; a busca de modos de estabelecimento de narrativas ou de novas narrativas sobre a história do país. Para não mencionar, é claro, as próprias ideias de parada, desfile e exibição, que se envolvem nas tentativas de formular uma estética que possa ser própria a uma cultura brasileira.

Os artistas que integram a presente exposição relacionam-se de diversos modos com o desfile de 1989 – seja criando uma imagem alegórica para o Brasil de hoje, seja testando a atualidade das afirmações de Joãosinho Trinta, apostando na “obra” como construção coletiva, utilizando um modo improvisado e precário – mas altamente inventivo e poético – de construção e registro, ou mesmo aludindo a esse instante efêmero de gozo que é o Carnaval. 

Agradecemos a todos os que nos ajudaram a realizar esta exposição, em especial aos artistas que, junto conosco, se dispuseram a fazer frente ao cenário devastador que a arte e a cultura vivem neste momento histórico. 

Thais Rivitti e Carlos Eduardo Riccioppo (curadores)

Veja o catálogo da exposição aqui

 

 

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Nosso Corpo, Nossa Voz

O grupo de estudos e trabalho Vozes Agudas, formado por mulheres atuantes na cena artística paulista, tem como mote estudar e intervir no sistema das artes, via uma perspectiva feminista de crítica da cultura. Dentre as nossas proposições de análise e participação no “jogo” de (in)visibilidade do meio artístico, preocupa-nos as dificuldades de inserção e consagração de trajetórias de mulheres artistas, curadoras, educadoras, produtoras e tantas outras profissões do meio, e suas negociações sociais para manutenção das carreiras.

Como uma das frentes de apoio e de enfrentamento face às dificuldades encontradas pelas mulheres (em sentido expandido) para se consolidarem profissionalmente, nos deparamos constantemente com as estratégias de silenciamento e apagamento histórico – e pensando nesse paradoxo de ausência/presença das mulheres no meio das artes, decidimos efetuar e propiciar plataformas de fala e escuta sobre as experiências profissionais e pessoais, a fim de que haja a possibilidade de troca, de referenciamento e de propagação da memória.

Ao longo de um ano, com esforço e teimosia, realizamos palestras e falas públicas com convidadas de diferentes setores e contingências do sistema das artes, estudamos aspectos pertinentes aos problemas feministas no meio artístico e, como consequência, efetuamos gravações e demais registros sobre essas falas, conversas e encontros. O resultado disso, ainda em processo de consolidação, é o podcast Vozes Agudas, em que conversamos com essas figuras femininas, feministas ou não, sobre suas escolhas e conflitos da profissão.

A fim de marcar o investimento de meses nessas ações, apresentamos aqui uma pequena exposição de três das artistas entrevistadas nesse percurso, que ora tocam questões feministas e de política da identidade, ora oferecem possibilidades de desvio em verdades solidificadas sobre o eu-mulher.

Fabiana Faleiros, Virginia de Medeiros e Ana Teixeira, artistas pertencentes a diferentes gerações, regiões do país, com trajetórias profissionais diversas e metodologias de trabalho também particulares, formam então um conjunto heterogêneo de extratos sociais, mas coerente no mote de questionamento de afetos e desejos, de subjetivação feminina em diferentes direções e objetivos, e de resoluções formais para os discursos poéticos. De um feminino socialmente consolidado – mas atravessado de estranhamentos – até o feminino performado – almejado ou debochado frente às convenções sociais – o que alinhava essas produções, inclusive em suas discordâncias, é a inquietude quanto às demarcações da feminilidade e nosso exercício de esgarçamento desses códigos de gênero.

Fabiana Faleiros desenvolve projetos de performance, artes visuais e escrita, no Brasil e no exterior. É doutora em artes e defendeu a tese “Lady Incentivo – SEX 2018: um disco sobre tese, amor e dinheiro”. Nesse trabalho, a artista pesquisou sobre a construção histórica da feminilidade branca por meio de uma perspectiva feminista decolonial. 

Virginia de Medeiros é conhecida por seu trabalho híbrido entre documentário e proposta de fabulação da vida, trabalhando com vídeo-instalação e audiovisual. Virginia é motivada, principalmente, pelas possibilidades de encontro, os afetos gerados por esses contatos e pela capacidade de conexão com os outros, materializada de modo fracionado pelas imagens e textos que produz.

O trabalho de Ana Teixeira transita por diferentes meios, com interesse pelo desenho e pela arte participativa, tendo a literatura e o cinema como suas principais referências. Se interessa por uma arte que propicie encontros, que se misture com a vida cotidiana e resulte em possíveis repercussões nos participantes.

Sigamos com mais corpos e mais escutas…

O grupo Vozes Agudas: mulheres na arte é formado por Ana Paula Monteiro Nagano, Bia Mantovani, Cal Kielmanowicz, Emily Mayumi, Juliana Caffé, Karina Sérgio Gomes, Letícia Ranzani, Mariana Lorenzi, Sol Casal, Talita Trizoli, Tania Rivitti e Thais Rivitti.

 

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Revistas experimentais no Brasil

Abrigando tão somente edições originais (excluindo, portanto, os fac-símiles), a presente mostra pretende dar a público parte substancial das “revistas” experimentais – ou “de invenção”, como já se disse – ao público interessado em Poesia e nas demais Artes. Revistas, como eram chamadas essas publicações, às quais faltava a periodicidade, para as que passaram do 1º número – eram, em verdade, antologias. Foram consideradas, no presente recorte, apenas revistas experimentais herdeiras, em certa medida, do Construtivismo brasileiro, excluindo-se outros experimentalismos e publicações acadêmicas, até com certo arrojo, ligadas a instituições de ensino ou a grupos editorias estabelecidos, sem a intenção, porém, de subtrair-lhes a importância. As Revistas, como se sabe, ficam entre o efêmero do Jornal e o perene do Livro e, nessa situação entre dois polos, acabam por abrigar preciosidades, que ainda não encontraram o veículo definitivo – portanto, reservando grandes surpresas aos pesquisadores. A preservação, guarda, exibição e divulgação desse material, abrindo-o às pesquisas, são de grande importância para os estudos que envolvem a Arte em geral e particularmente a Poesia. E é com este objetivo que o GP ARTE CONSTRUTIVA BRASILEIRA E POÉTICAS DA VISUALIDADE organizou esta mostra, com foco principal nas revistas que floresceram a partir dos anos 1970 e  80, com alguma inflexão para as precursoras e visando, por outro lado, ao Terceiro Milênio.

As Publicações: NOIGANDRES . INVENÇÃO . VÍRGULA . CÓDIGO . POLEM . NAVILOUCA . BAHIA INVENÇÃO . ARTÉRIA . POESIA EM GREVE . QORPO ESTRANHO . MUDA . I . CASPA . SURPRESA . JORNAL DOBRABIL (REVISTA DEDO MINGO) . VIVA HÁ POESIA . ALMANAK 80 . ZERO À ESQUERDA . KATALOKI . AGRÁFICA . ATLAS

Curadoria: Omar Khouri

Organização: Edna Watanabe, Felipe Paros, Karina Sérgio Gomes, Marcela Souza

Exposição como parte integrante do evento: ‘Primeiro encontro de pesquisadores de Arte Construtiva Brasileira e Poéticas da Visualidade’
GP Arte Construtiva Brasileira e Poéticas da Visualidade

Biblioteca do IA-UNESP, campus de São Paulo, de 24.6 a 12.7.2019

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Vestígios – memória e registro de performance e site specific

A mostra Vestígios – memória e registro da performance e do site specific, elaborada pelos alunos do curso Laboratório de Curadoria, ministrada por Tobi Maier, foi composta a partir de obras do acervo do MAM e de sua biblioteca, que fossem classificadas como performance ou site specific e tivessem o corpo como suporte.