Categorias
Faculdade Cásper Libero Novidades Site de Cultura Geral Web

Mas é Carnaval na rua

[Reportagem para o site de Cultura Geral]

Além da Sapucaí e do Sambódromo, há outras maneiras de brincar o Carnaval. No município de Santana do Parnaíba, em São Paulo, acontece a “miscelânea carnavalesca”. As ruas do centro histórico são invadidas por uma onda de alegria, colorido e guerrinha com spray de espuma.

A folia começa na sexta à noite (24/2) às 22h com a Noite dos Fantasmas e o bloco “Grito da Noite”, grupo folclórico de origem negra, e só termina na terça-feira aproximadamente, por volta das oito horas da noite, com o bloco “Rufem os tambores”. Entre as atrações da festa estão: os Cabeções, os quais representam o artesanato local e se assemelham aos bonecos gigantes de Olinda; os desfiles das duas escolas de samba do município, que a cada ando ganham fantasias mais luxuosas e 14 blocos puxados por trio-elétricos.

As escolas de samba Clube Atlético Sant’Anna (C.A.S.A) e a Unidos de Santana de Parnaíba, a qual é da prefeitura, este ano representarão os seguintes temas: a primeira falará sobre a copa do mundo, “Sou casa, sou seleção, sou Brasil hexacampeão”, e a outra recorda o carnaval tradicional da cidade, “Recordar é Viver”. O desfile acontece duas vezes mesmo horário, às 16 horas, numa avenida principal da cidade, o primeiro no domingo e depois na terça-feira.

Os blocos saem em torno de duas em duas horas. Em alguns blocos, o ingresso para participar são dois quilos de alimento, que serão destinados ao Fundo Social de Solidariedade. Nem todos fazem isso: para se unir aos blocos, basta animação e disposição para seguir com o trio-elétrico pelas ruas históricas da cidade.

A prefeitura estima que 120 mil foliões irão ao município festejar o carnaval. E por isso conta no esquema de segurança para o evento conta com 120 Guardas Municipais Civis 10 postos policiais e um posto integrado com a PM.

O carnaval de rua de Santana de Parnaíba é a alternativa barata e divertida para quem quer foliar sem sair de São Paulo ou ir ao sambódromo.

Para mais informações: (11) 4154-2019

Categorias
Faculdade Cásper Libero Novidades Site de Cultura Geral Web

Filme trata prostituição infantil em tom de documentário

[Resenha para o site de Cultura Geral]

O cinema nacional vem registrando retratos do Brasil, ora em um viés histórico, ora social. Anjos do Sol, de Rudi Lagemann, discute prostituição infantil. O roteiro do filme é baseado, dentre muitas notícias e relatos sobre o tema, na história de Cinqüenta Centavos, uma menina que se prostitui para ganhar a vida e cobra o valor de seu pseudônimo.

Maria (Fernanda Carvalho),12 anos, de família nordestina miserável é vendida por seu pai para conseguir um sustento momentâneo à família. Revendida a uma cafetina (Vera Holtz), leiloada para um fazendeiro, Lourenço (Otávio Augusto) – que quer uma garota pura para seu filho perder a virgindade – e mais uma vez vendida para um bordel de prostitutas infantis e outras recém-saídas da infância.

Durante todo esse comércio, Maria conhece Inês (Bianca Comparato), garota mais madura, arisca, que convence a protagonista a fugir com ela. São capturadas pelo dono do bordel, Saraiva (Antônio Callado) e “presenteadas”, como diz o cafetão. Inês é amarrada a um jipe e arrastada até a morte. Essa é a cena mais forte e dramática do filme. A personagem de Comparato, sempre de semblante fechado, mostrando-se até o momento uma pessoa forte, quando se vê na situação do castigo desaba, chora.

A morte da amiga, somada ao seu castigo (ficar durante um mês presa acorrentada na cama recebendo toda noite clientes sem parar) faz crescer um sentimento de revolta em Maria. Em um dia da Copa, ajudada pela prostitua Celeste (Mary Sheyla), foge para o Rio Janeiro. Procura a alcoviteira Vera, que além de manter garotas na prostituição na orla de Copacabana, contribui para o comércio sexual pela Internet. E ao perceber que sua vida não seria diferente ao lado da cafetina carioca, foge. Contudo, dessa vida e nas condições nas quais se encontra, não há outra saída.

Apesar do tema forte, o filme é formado por cenas sutis, delicadas. O caráter de denúncia está presente o tempo todo. O drama tem uma seqüência linear, chegando até ser um pouco previsível. Tem um certo ar de reportagem devido a verossimilhanças dos figurinos e cenário. A atriz que interpreta Maria consegue, através do olhar, refletir a tristeza de uma infância roubada; sempre de cabeça baixa demonstra a opressão de quem está além margem da sociedade, um universo fechado onde nunca se sabe o que esperar do amanhã.

Categorias
Faculdade Cásper Libero Novidades Site de Cultura Geral Web

Nas menores coisas

[Crônica para o site de Cultura Geral]

Um homem. Não chamaria a atenção se não estivesse tentando pescar algo no ralo da praça da Sé.

Segurando uma linha com um imã amarrado na ponta, tentava baixar-lo por entre as frestas. Seus olhos reluziam, o sorriso confirmava: só poderia estar brilhando, ali, uma grande moeda dourada e prateada de um real. Sentei no degrau da escadaria da Catedral da Sé para observar a pesca urbana.

Por ali, vários seres de dar medo. Medo pela condição humana que se encontram e por saber que sozinha não poderei fazer nada por eles. Medo por não conseguir prever sua reação ao me aproximar. Por não saber qual é o real limite do ser humano em tal condição. Estarão próximos de uma explosão? Por que não se revoltam? Sem comida, sem roupas, expostos a frio de 5 graus, sem um lar, sem amigos, sem escovar os dentes ou falar, só esperando a morte, vivendo por viver. Aquele pescador também era mais um desses desafortunados, sem futuro, sem nada. Quer dizer, dali alguns minutos com um real, com o qual ele poderá comprar um copinho de cachaça para se esquentar naquele gélido fim de manhã.

Observava as tentativas frustradas. Muitas foram as vezes que o imã subiu sozinho o que fez o sorriso ostentado no começo se transformar numa expressão séria, compenetrada. Mordiscava o lábio inferior tamanha a concentração. Gesto que o aproximou de mim, que também tenho o tique de mordiscar a lábio inferior em momentos tensos.

Conseguiu! Mas muito foi o meu espanto quando vi que, na ponta da linha segurando o imã, não estava a moeda do meu imaginário. Lá, uma correntinha prateada com um pingente. Um pingente que parecia uma medalhinha de algum santo.

O homem sorriu, logo colocou-a no pescoço e veio andando.. Passou pelos turistas que disparavam seus flashes para alto retratando a grandiosidade da catedral, transitou pelos seus iguais, aproximou-se da escada, olhou para cima e, firme, subiu os degraus passando por mim.

Dei um tempo, fui atrás. Um novo arregalar de olhos. Percebi que os raios sol do meio dia, reluzidos pelos vitrais dentro da Sé, dão uma coloração dourada às colunas de concreto. A frieza da cinza construção ganhou o encanto do dourado e me atraiu ainda mais para dentro. Ao entrar, me rendi à arte gótica e fiz o nome do pai. Procurei o pescador, achei.

Senti-me infeliz. Ele ajoelhado no banco rezava. O sentimento não-reclame-mais-da-vida voltou. E por um instante eu tive a certeza de que a alegria está nas menores coisas, ou maiores coisas. Como acordar numa gélida manhã e perceber que está vivo. Respirar, às vezes, basta.

Categorias
CONTEÚDO Faculdade Cásper Libero Novidades Site de Cultura Geral Web

Nudez premiada

[Crítica para o site de Cultura Geral]

Quarenta e um anos depois da primeira montagem, Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues, ainda causa incômodo pela forma escrachada de retratar uma sociedade moralista. A peça coloca o dedo na ferida e mostra, sem pudores, toda a nudez castigada pelos risos impróprios da platéia.

Última peça do Anjo Pornográfico, foi encomendada e recusada por Fernanda Montenegro por achá-la agressiva demais, em 1965. A montagem em cartaz, do Grupo Armazém Cia. de Teatro conquistou o Prêmio Shell de Teatro (Rio) 2005 nas categorias melhor direção (Paulo de Moraes) e melhor iluminação (Maneco Quinderé), além de ter recebido as indicações em: melhor Atriz (Patrícia Selonk) e melhor cenário (Paulo de Moraes e Carla Berri). Agora chega a São Paulo, despertando risos, raiva e emoção do público.

O enredo foca a história da prostituta Geni. Ao se relacionar com Herculano, um viúvo semicasto, o faz quebrar a promessa feita ao filho: não ter outra mulher na vida além de sua mãe. Todos os acontecimentos são induzidos pelo inescrupuloso Patrício, irmão do víuvo, que conduz a história das personagens com atitudes amorais, inclusive o fim de Geni, logo revelado na primeira cena.

A direção premiada, de Paulo de Moraes, merece destaque por atentar a detalhes sutis – apenas as personagens ligados à prostituição usam sapatos, por exemplo. A versatilidade do cenário, sincronia nos movimentos cênicos, sonoplastia e iluminação deixam peça redonda. Os atores em total sinergia, resultado de um texto encenado em grupo, fazem com que a obra em si se sobressaia. O ritmo lento do começo aos poucos vai acelerando até chegar a um ritmo quase frenético, para um desfecho poético.

A “obsessão em três atos”, segundo seu próprio autor, é uma peça que propõe algumas reflexões sobre o certo e o errado. O que é permitido pela sociedade é realmente normal? Ou na vida mundana há mais “normalidade”? A peça atingiu sua maturidade sem virar careta ou perder a atualidade.

Categorias
Edição Extra Faculdade Cásper Libero Novidades Vídeo

Sérgio Romagnolo – O corpo denso da imagem

[Reportagem para o programa Edição Extra*]

sérgio romagnolo – o corpo denso da imagem from Karina Sérgio Gomes on Vimeo.

 

sérgio romagnolo – o corpo denso da imagem from Karina Sérgio Gomes on Vimeo.

O artista plástico Sérgio Romagnolo fala de sua exposição O Corpo Denso da Imagem e das referências em seu trabalho.

*Edição Extra é o único programa-laboratório do país apresentado em TV aberta. Durante 30 minutos são apresentadas reportagens sobre as novidades e os bastidores da comunicação brasileira. É transmitido pela TV Gazeta todo primeiro domingo de cada mês às 00h00, logo depois do Mesa Redonda.
Categorias
Edição Extra Faculdade Cásper Libero Novidades Vídeo

Perfil de Mônica Nador

[Reportagem para o programa Edição Extra*]

 

mônica nador – perfil from Karina Sérgio Gomes on Vimeo.

mônica nador – perfil from Karina Sérgio Gomes on Vimeo

 

Imagine morar dentro de uma pintura? Pode parecer ficção, mas Mônica Nador, artista plástica formada pela faap, vive dentro de sua própria obra. insatisfeita com o circuito comercial, Monica decidiu levar arte àqueles que não costumam frequentar museus e galerias.

*Edição Extra é o único programa-laboratório do país apresentado em TV aberta. Durante 30 minutos são apresentadas reportagens sobre as novidades e os bastidores da comunicação brasileira. É transmitido pela TV Gazeta todo primeiro domingo de cada mês às 00h00, logo depois do Mesa Redonda.
Categorias
Faculdade Cásper Libero Novidades Site de Cultura Geral Web

Zuzu Angel: quem é essa mulher?

[Resenha para o Site de Cultura Geral]

Uma abertura novelesca. Rio de Janeiro, década de 70, regime militar. Uma mulher desquitada luta para vencer na vida e criar três filhos. Entre eles, um menino, o primogênito, participante do movimento estudantil. Luta contra a ditadura vigente no país, acaba preso torturado e morto. Este é o roteiro do filme dirigido por Sérgio Rezende, e Essa Mulher é a brasileira, estilista ou – como ela preferia – costureira, mãe: Zuzu Angel.

O filme é protagonizado por Patrícia Pillar, que interpreta de maneira brilhante, limpa e forte, assim se assemelhando a sua personagem: Zuleika Angel Jones – mineira, nascida em Curvelo, casou-se com um estadunidense, com o qual teve seus três filhos: Stuart (Daniel Oliveira), Hidelgard (Regiane Alves) e Ana (Fernanda Tavares) -. Em seus últimos dias de vida, Zuzu se isola em Minas Gerais para organizar um dossiê sobre a morte de seu filho, começa gravar uma fita e através de sucessivos flashbacks a trama vai se desvendando.

Para Zuleika, a militância política de Stuart – ou Tuti para mãe – era coisa de jovens de classe média desocupados, sem medo do perigo e que não sabiam o que estavam fazendo. E mesmo preocupada, seguia sua vida a costurar, lança coleções no EUA e faz sucesso com sua moda legitimamente brasileira, com a qual exaltava o colorido, a natureza, o regionalismo e a falsa alegria do país na época.

Eis que o telefone toca, do outro lado, uma voz aflita: “Paulo Caiu, tá na P. E.!”. Era a senha para a realidade se revelar a Zuzu. Essa mulher vai em todos os órgãos de segurança governamentais e a todos que possam dar uma pista para saber onde está seu Tuti. Ele havia sido preso e foi torturado até a morte por não revelar o endereço de Carlos Lamarca, um dos líderes da militância política. Essas cenas se mesclam com as da estilista lendo desesperadamente a carta detalhada sobre a morte do filho. Imagens desfocadas provocam uma sensação angustiante.

Saber que o filho morreu sob tortura é o gás para a mãe, que passa a viver com o objetivo de fazer justiça pela morte de seu filho – ao menos para conseguir o corpo e dar um enterro digno. A revolta inspira Zuzu em novas coleções, agora com temas militares, anjos pretos, passarinhos enjaulados entre outros temas de “abaixo a ditadura”. Seus protestos e ações incomodam o governo, e a estilista passa a ser perseguida. Até que é morta em um acidente criminoso.

Cores contrastadas valorizam o cenário e o figurino, especialmente o de Pillar. Há o abuso dos closes e cenas fechadas, oferecendo detalhes sugestivos aos espectadores. Além da emocionante história de Zuzu Angel, o filme é visualmente bonito. Atores globais, Rio de Janeiro como cenário principal, cena de sexo, violência, uma personalidade forte e a incomparável música brasileira. Tudo que um filme brasileiro pode ter. E nós temos.

Categorias
Edição Extra Faculdade Cásper Libero Novidades Vídeo

fotojornalismo: informação e arte

[Reportagem para o programa Edição Extra*]

Fotojornalismo – Informação e arte from Karina Sérgio Gomes on Vimeo.

O fotógrafo Cristiano Mascaro, o editor de fotografia d’O Estado de S. Paulo, Eduardo Nicolau, e o pessoal da Cia de Foto falam sobre fotografia, jornalismo, arte e o uso do photoshop.

*Edição Extra é o único programa-laboratório do país apresentado em TV aberta. Durante 30 minutos são apresentadas reportagens sobre as novidades e os bastidores da comunicação brasileira. É transmitido pela TV Gazeta todo primeiro domingo de cada mês às 00h00, logo depois do Mesa Redonda.

Categorias
Faculdade Cásper Libero Site de Jornalismo Web

Profissão…Repórter?

[Resenha para o site de jornalismo (06/10/2006)]

Por Karina Sérgio Gomes, 1º ano de jornalismo

Michelangelo Antonioni discute condição humana em “Profissão: Repórter”

O fugitivo. Talvez esse fosse o melhor nome para Profissão: Repórter, filme de Michelangelo Antonioni lançado em 1975 e agora relançado primeiro olhar, o título da obra em português parece pouco apropriado, já que, salvo alguns flashbacks que mostram entrevistas realizadas pelo personagem principal, o enredo se concentra em temas como a condição humana e a angústia decorrente da busca interior.

A estranheza provocada pelo título se estende ao filme, que nada tem a ver com narrativas óbvias e personagens caricatos de muitos filmes que fazem alusão ao jornalismo, como O Jornal, de Ron Howard. O suspense de Antonioni possui ritmo lento, inovadores recursos de câmera e poucos diálogos.

O roteiro, baseado em obra de Mark Peploe, narra a vida do jornalista David Locke (Jack Nicholson), que está entediado com a rotina de sua vida e profissão. Durante a produção de um documentário sobre movimentos guerrilheiros na África, Locke conhece David Robertson (Chuck MulveHill), que está hospedado em seu hotel. A história dá uma virada quando Locke encontra Robertson morto e, mesmo sem saber quem ele é, resolve assumir sua identidade. Uma caderneta deixada por seu xará e recente amigo lhe servirá de roteiro para uma nova vida, e de entrada para um labirinto sem volta.

Editor do site Cine Reporter, Rodrigo Carreiro, acredita que Profissão: Repórter é um filme “de perguntas e não de respostas”. Tal idéia torna o título do filme totalmente apropriado, fazendo uma analogia à classe de questionadores, que – ao menos em tese – buscam incessantemente a verdade. Com nova identidade, Locke busca sua própria verdade e um sentido para viver, fugindo sempre dos “fantasmas” do passado.

Além do jornalista central, o filme também conta com outros personagens da profissão, como Martin Knight (Ian Hendy), que na tentativa de produzir um programa em homenagem a Locke começa a procurar “Robertson”. A fim de conseguir mais detalhes sobre a suposta morte do repórter, Knight sai da condição de produtor para a de detetive, na busca por Robertson-Locke.

A identificação de características jornalísticas nos personagens é difícil, pois estão representadas de forma superficial. O foco principal está no plano psíquico, marca de Antonioni, que em seus filmes costumaretratar a essência dos personagens. Para mostrar-nos o interior de Locke, o diretor aposta em recursos sofisticados e inovadores para a época, como movimentação de câmeras (que funciona como uma testemunha ocular, apenas observando os acontecimentos) e flashbacks. Talvez por isso o próprio diretor considere Profissão: Repórter, indicado para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 1975, seu filme estilisticamente mais maduro.

Profissão: Repórter
(Professione: Reporter – Itália/Espanha, 1975, 125 min)
Direção: Michelangelo Antonioni
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider, Jenny Runacre.
DVD: R$ 33,90 – além do filme, a edição traz trailer de cinema, seleção de cenas e comentários em áudio do ator Jack Nicholson e do roteirista Mark Peploe.

Categorias
Faculdade Cásper Libero Site de Jornalismo Web

Em nome da boa reportagem

[Entrevista feita para o Site de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (16/01/2007)]

Por Karina Sérgio Gomes, 2º ano de Jornalismo

“Imprensa atual está contaminada por jornalismo declaratório”

A banca avaliadora do livro-reportagem Tragédia no vôo 402, projeto experimental realizado pelos alunos Guilherme Massa Guimarães, Joyce Ribeiro Silva, Rafael Araújo Castro, contou com um dos mais famosos jornalistas brasileiros: Caco Barcellos, consagrado repórter da TV Globo e atual apresentador da série “Profissão Repórter”, exibida pelo Fantástico.

Após anunciar a nota dez conferida ao trabalho, o jornalista nascido em Porto Alegre concedeu uma breve entrevista ao Site. A conversa se dividiu em duas partes. A primeira ocorreu na sala Aloysio Biondi, enquanto Barcellos, sentado, abria e fechava incessantemente as hastes do óculos de armação de acetato azul. Mais tarde, o bate-papo prosseguiu em plena Avenida Paulista, até que ele chegasse ao estacionamento onde estava seu carro.

Autor de livros como Rota 66 – A História da Polícia que Mata (Record, R$ 41, 352 p.), vencedor do prêmio Jabuti de 1993 na categoria melhor obra de não-ficção, e Abusado – O Dono do Morro Dona Marta (Record, R$ 56, 588 p.) sobre a trajetória do traficante Marcinho VP, Barcellos conta sobre o início de sua carreira, como a série “Profissão Repórter” busca colocar em prática antigos valores do jornalismo, e sobre a importância dos livros-reportagens.

Como o Cláudio Barcelos deixou a faculdade de Engenharia para se tornar o jornalista Caco Barcellos?
Foi por acaso, como tudo na minha vida. Escrevia desde garoto, mas morria de vergonha de mostrar meu texto. Na faculdade de Engenharia, fui convidado a escrever para o jornal do Centro Acadêmico. Como na faculdade de exatas ninguém gosta de escrever, aceitei correndo. Na seqüência, um grupo hippie também me convidou para colaborar em uma publicação que vendíamos de mão em mão nas ruas. Um dia, um jornalista comprou esse jornal, gostou muito e nos convidou para fazermos um teste na Folha da Manhã. Logo me apaixonei pela profissão. Depois que virei estagiário, me perguntaram se eu tinha faculdade. Respondi que tinha, mas não revelei que era Engenharia. Ao final, eles disseram: “Olha, a gente quer te contratar. Traga os documentos da faculdade”. Aí eu pensei: “Meu deus! O que eu faço agora? Descobriram meu blefe!” Então corri até a faculdade, consegui fazer a transferência, apresentei o documento da faculdade de comunicação e deu tudo certo.

Qual a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma?

Tive a sorte de fazer o curso de comunicação já trabalhando na área. Minha grande faculdade foi a rua, mas acho que a faculdade tem um papel importante. Fico encantado com a qualidade da formação desses jovens com quem agora tenho a oportunidade de trabalhar [na série “Profissão Repórter”]. Reconheço que depende muito da postura de cada um, independente da qualidade da faculdade. Se você não tiver interessado em se formar com qualidade não adianta. Mas a gente tem que pensar no aluno que está interessado em uma boa formação, e para ele a ferramenta faculdade é indispensável. A decorrência disso é o diploma, mérito de quem se formou. Todas as profissões passam por esse processo, médicos, engenheiros. Você, como jornalista, não pode praticar medicina, nem engenharia. Então, por que eles poderiam praticar jornalismo? O importante é que a informação de qualidade não fique fora das redações pelo impedimento do diploma. Você pode trazer o cientista às vias do repórter, e o instrumento mais adequado a essa transferência é o trabalho da imprensa. Acho que a gente faz isso melhor do que os profissionais de cada segmento.

Como surgiu a idéia do programa Profissão Repórter?
A idéia foi minha. Há dez anos tenho o projeto de fazer reportagem com vários olhares simultâneos, e ao mesmo tempo revelar os bastidores do trabalho, os erros e os acertos, as dúvidas, as questões éticas. O jovem ali é um detalhe, não secundário, mas um detalhe. Não é um projeto focado em novos talentos, e sim na reportagem. Não há nada de novo no projeto. Trata-se de uma coisa muito antiga: o valor da reportagem, que está esquecida nas grandes redações.

Qual foi o critério de seleção dos participantes?

A TV tem um sistema de seleção de talentos muito profissional, o Estagiar. Avaliamos os 30 escolhidos nos últimos cinco anos, para selecionar quem participaria. Mas, independente disso, quem tiver um trabalho legal que queira mostrar pode enviar também. Houve dois participantes que a gente contratou a partir da obra feita. Pessoas que não conseguiram passar pelo Estagiar, mas trouxeram seus documentários.

Como é a experiência de avaliar um livro-reportagem feito por quem está saindo da faculdade?
O que você acha da iniciativa desses alunos? Acho que é uma iniciativa maravilhosa porque, como jornalista já experiente, sinto que os meios de comunicação não estão dando ênfase ao trabalho da reportagem. As empresas estão contaminadas pelo jornalismo mais ligeiro e leviano, pouco profundo, que é declaratório e baseado no fuxico. Isso prejudica a investigação feita pelo jornalismo mais sério e responsável, sobretudo quando lida com denúncia. Esses valores foram esquecidos. É uma prática antiga que a imprensa sempre deu grande importância: a investigação autônoma e independente. A iniciativa de valorizar o jornalismo investigativo, e um trabalho de fôlego como é o da reportagem, é super pertinente. Os livros-reportagens vendem muito mais do que os de ficção porque há uma necessidade de mercado. Elas [as editoras] torcem para que as revistas e os jornais continuem a menosprezar o repórter, pois estão contratando-os para serem escritores.

O livro seria então uma forma de “combater” esse jornalismo imediatista e sem embasamento?

Acho que as coisas podem coexistir. Não sou contra o jornalismo instantâneo, desde que seja responsável. A entrevista, por exemplo, é muito importante para o início de um trabalho, não para o produto final. Na entrevista você pode dizer maravilhas a respeito de uma pessoa, assim como pode dizer barbaridades. Cabe ao jornalista fazer um filtro. E esse filtro não se pode fazer ao vivo, tem que ser com fôlego, com trabalho. E não há tempo. Você pode precisar de quinze dias como de um ano, como já aconteceu comigo algumas vezes, mesmo na TV.

O que você acha de um de seus livros-reportagens, Abusado, ser obra de leitura obrigatória do vestibular da Faculdade Cásper Líbero?
Fiquei muito orgulhoso [quando soube da notícia], até porque as companhias são maravilhosas [além de Abusado, a lista possui obras de Manoel de Barros, Jorge Andrade, Mia Couto, Machado de Assis e Graciliano]. Fiquei muito feliz por uma faculdade de qualidade como a Cásper Líbero achar que meu livro pode contribuir para a formação de novos profissionais. É maravilhoso! Foi a melhor notícia que tive com o Abusado. Maravilhoso!

Você já trabalhou em jornais, revistas e na televisão. Há muita diferença na liberdade para se exercer a prática jornalística em cada meio?

Trabalhei em vinte redações e não há diferença nas coisas positivas e negativas. A gente tem que pensar em um conjunto, e cabe a cada um brigar pela independência de seu trabalho. Nunca cruzei com nenhum chefe que tenha impedido que eu desse o melhor de mim. Todos querem o seu melhor, e cabe a você, quando sentir que a sua criatividade estar sendo contida por algum chefe, pular o muro, avançar o sinal.

De que maneira seria possível solucionar uma situação de enfrentamento como essa?
Acho que o melhor caminho para fazer isso é a persistência. Digamos que um determinado chefe quer que você faça determinada matéria, e apresenta uma sugestão de pauta e 30 documentos que dão base para a sua reportagem. Depois você consegue dois mil documentos provando que aqueles do seu chefe são inverídicos. Cabe a você provar que sua pauta, agora, é melhor que a dele. Nunca, no meu caminho, um chefe disse “não, fique com trinta inverídicas e jogue fora as duas mil verídicas”. Às vezes não há o espaço merecido, mas ninguém lhe obriga a fazer o que você não quer, sobretudo sobre algo que não seja correto. Muita gente se queixa de determinada redação, mas o que conta mesmo é o talento, a garra e a persistência do trabalhador, que faz com que ele acabe achando o seu espaço, sempre.

Está satisfeito trabalhando na televisão?
Me orgulho muito de trabalhar na TV. É um privilégio que eu gostaria que muita gente tivesse, pois quem gosta de contar histórias gosta de ser ouvido, e a TV é um veículo maravilhoso. É legal você imaginar que pode contar uma história e ser ouvido por tanta gente. O jornalismo é uma profissão fascinante.