Valeska Soares

[Texto para a Enciclopédia do Itaú Cultural]

Valeska Soares (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1957). Artista visual. Explorando dualidades de sentido, como prazer e desagrado, beleza e morbidez, completude e ausência, produz obras que integram diferentes linguagens, como pintura, escultura, colagem, vídeo e instalação.

Formada em arquitetura pela Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, produz seus primeiros trabalhos em 1989, a maioria deles com a denominação Untitled (sem título). Os primeiros objetos e esculturas são criados com materiais do cotidiano, e muitos deles consistem na fixação de tecidos em armações. Um exemplo disso é Mar de Rosas (1989), em que uma delicada colcha branca, bordada com desenhos de rosas, é presa por um gancho, fixado em um cabo de aço.

Para o crítico de arte Adriano Pedrosa (1965), Valeska lida com um complexo repertório de temas, que têm em comum a resistência a uma nomeação precisa ou a presença de conceitos opostos em uma mesma obra. Em Sem Título (Preserva) (1991), a artista expõe dúzias de rosas vermelhas, embrulhadas em algodão branco. Com o tempo, as flores começam a apodrecer e o trabalho adquire feições mórbidas. Para o estudioso Charles Merewether, ela cria em suas obras um universo hermético e místico, de grande poder erótico. As rosas podem remeter ao amor, mas também ao vermelho do sangue e à morte.

De acordo com a curadora Júlia Rebouças (1984), desde a década de 1990, os trabalhos da artista remetem ao feminino. Isso fica evidente em Doubleface (2017-2018), em que lida com retratos de mulheres, encontrados em antiquários. A artista pinta o avesso das telas, nas quais figuram os retratos, e faz um corte de tamanho e posição distintos em cada uma, dobrando a parte recortada. O procedimento faz o rosto, as pernas, os pés ou as mãos dessas figuras femininas se destacarem na nova superfície pintada.

Valeska se especializa em história da arte e arquitetura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ) em 1990. Muda-se para os Estados Unidos em 1992 e faz um mestrado no Pratt Institute. Inicia doutorado em artes plásticas na New York University em 1996.

Na década de 1990, há uma mudança de escala nos trabalhos da artista, que passam a ocupar um espaço maior. Em Sem título 03 (From Fall) (1994), toda uma sala da Bienal de São Paulo é usada. Nela, Valeska espalha rosas vermelhas pelo chão e faz saírem do teto pares de cordas feitas com cabelos sintéticos, que seguram um bastão de mármore disposto na horizontal. O uso de flores, como rosas e lírios, torna-se frequente nessa época, acrescentando aos trabalhos novos sentidos e sensações, como tato e olfato. Em Vanishing Point (1998), a artista justapõe tanques de aço inoxidável ao redor de uma coluna, aludindo a diagramas de jardins clássicos, em labirinto. Os tanques se transformam em esculturas e são preenchidos por uma solução perfumada. O perfume adocicado, a princípio sedutor, torna-se, por seu excesso no ambiente, enjoativo.

A formação da artista lhe permite trabalhar com elementos arquitetônicos e paisagens, que se tornam mais frequentes em suas obras no final da década de 1990. É o caso de Folly (2005-2009), que, exibida pela primeira vez na Bienal de Veneza, integra a coleção de Inhotim, em Minas Gerais. Na obra, as paredes espelhadas de uma espécie de coreto incluem a vegetação que está ao redor. Na parte de dentro da estrutura, em que também há espelhos, é possível ver uma projeção de pessoas dançando no antigo cassino da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, ao som da canção “The Look of Love”. A instalação passa ao espectador uma sensação de suspensão do tempo, em que passado (as pessoas dançando) se mistura com presente (o reflexo do visitante na parede).

Valeska também inclui literatura em suas obras, ao usar capas de livros como objetos de composição, como em Novella (from Bindings) (2010), ou escritos literários, como faz em Edit (Love Stories) (2012). Nesta obra, ela apaga frases de livros, como Fragmentos de um discurso amoroso (1977), de Roland Barthes (1915-1980), deixando aparentes apenas trechos sobre rompimentos amorosos e envolvimentos afetivos.

Com materiais contrastantes, e por meio da dualidade de sentidos, a obra de Valeska amplia as possibilidades de ocupação e ressignificação dos espaços

 

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